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com Mano Ferreira

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A direita precisa abraçar o Zé Gotinha

Flávio Bolsonaro precisa conquistar eleitores moderados enquanto seu irmão abraça movimento antivacina. Sabotagem?

Mano Ferreira

Publicado: 12/08/2026 às 07:13

Injeção vai substituir o 'Zé Gotinha"/Foto: Divulgação

Injeção vai substituir o 'Zé Gotinha" (Foto: Divulgação)

Eduardo Bolsonaro gravou um vídeo triunfante. US$ 10 por uma declaração jurada no Texas para que a filha não precisasse se vacinar. Para ele, a não obrigatoriedade seria uma conquista de liberdade, modelo a ser seguido pelo Brasil. Num país acostumado a grandes índices de adesão à vacinação, parece uma piada de mal gosto, mas está longe de ser uma posição isolada. 

Na mesma semana, o presidente americano Donald Trump assinou uma ordem executiva tirando seis vacinas da lista de recomendação para crianças americanas. Por alguma razão esquisita, talvez uma espécie de fobia às agulhadas, parte da direita mundial tem se engajado em construir a sua própria revolta da vacina.
No Brasil, a direita populista parece acometida pelo vício de importar ideias erradas dos EUA, sem pagar pedágio. 

Isso não é liberalismo. É burrice disfarçada de coragem. O valor central do liberalismo é a liberdade. Mas o que é a liberdade na vida em comunidade, para além das abstrações? É ter poder e capacidade de escolher. Epidemias são as famosas externalidades negativas: impõe custos sobre terceiros e degradam a liberdade individual, porque diminuem a nossa capacidade de fazer escolhas. 

Quem já ficou doente entende intuitivamente o que isso significa. E todos sabemos, pelas mais tristes razões, as implicações coletivas para as nossas possibilidades de escolha que existem em meio a um surto epidemiológico ou uma pandemia. 

Quem não vacina o filho não assume só um risco pessoal. Está pegando carona na imunidade de rebanho construída pelos vizinhos que vacinaram os deles. No longo prazo, ao disseminar uma desconfiança tola contra avanços consolidados da ciência, sabota a própria saúde e degrada as possibilidades de escolha no futuro. É uma postura, portanto, antiliberal. 

O mais irônico é que o nosso Programa Nacional de Imunizações é uma das melhores políticas públicas do país. Erradicamos a poliomielite, quase eliminamos o sarampo e viramos referência mundial. E sabe o que mais? Isso foi iniciado em 1975, ainda na ditadura militar, por um governo de direita. 

Não há sentido em tratar oposição a vacinas como bandeira da direita. A imunização era uma questão superada no debate nacional, até que a família Bolsonaro resolveu importar esse corpo estranho. 

Caso deseje ter chances reais de superar o presidente Lula num provável segundo turno, Flávio Bolsonaro precisa conquistar eleitores independentes. Para isso, tenta suavizar sua imagem e construir um Flavinho Paz e Amor. Um “Bolsonaro que toma vacina”, já disse. 

Seu irmão, porém, corre para abraçar o radicalismo. Seria uma espécie de sabotagem? Estaria Eduardo se posicionando no tabuleiro para disputar a herança política do pai após uma derrota do irmão? Só saberemos após outubro.
Uma coisa é certa. Se a direita brasileira deseja ter chances de vitória, jamais deveria abraçar o movimento antivacina. Deviam correr para abraçar o Zé Gotinha.

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