Falsas denúncias de violência contra a mulher existem, mas são menos de 2,5% dos casos
Estudos mostram que falsas denúncias são raras, a maternidade tem elevado custo emocional e a dor feminina continua sendo frequentemente negligenciada.
Publicado: 23/06/2026 às 10:31
Estudos mostram que falsas denúncias são raras, a maternidade tem elevado custo emocional e a dor feminina continua sendo frequentemente negligenciada. (Gerada por IA)
A ideia de que a maioria das denúncias de violência contra a mulher seria falsa, não encontra respaldo nas pesquisas disponíveis. Apesar da circulação de números como 40%, 50% ou até 80% nas redes sociais, os estudos realizados em diferentes países apontam uma realidade bastante distinta: as falsas denúncias existem, mas representam uma pequena parcela dos casos.
No Reino Unido, pesquisa conduzida pela Open University identificou cerca de 2,5% de denúncias comprovadamente falsas. Na Austrália, levantamento realizado pela Polícia de Victoria encontrou índice de 2,1%. Na Espanha, dados do Conselho Geral do Poder Judiciário apontam percentual inferior a 0,01%. Na Argentina, levantamento do Observatório de Gênero dos Ministérios Públicos Fiscais identificou apenas 0,09% de falsas denúncias, entre milhões de processos analisados.
No Brasil, ainda não existem pesquisas consolidadas sobre o percentual de falsas denúncias de violência contra a mulher. Isso ocorre porque os casos, comprovadamente falsos, são pouco frequentes e não costumam ser objeto de estatísticas oficiais. Contudo, a ausência de dados nacionais não autoriza a divulgação de números sem fundamento. Diante dessa lacuna, os estudos internacionais disponíveis são
a principal referência.
Isso não significa que o problema deva ser ignorado. Uma acusação falsa pode causar danos à reputação, à vida familiar e à trajetória profissional de qualquer pessoa. Por essa razão, o ordenamento jurídico brasileiro prevê punições para quem acusa alguém sabendo que a acusação é falsa. Dependendo do caso, a conduta pode configurar denunciação caluniosa (art. 339 do Código Penal), cuja pena é de reclusão de 2 a 8 anos e multa, ou comunicação falsa de crime (art. 340 do Código Penal), punida com detenção de 1 a 6 meses ou multa.
O que as pesquisas revelam sobre a saúde mental das mães?
A maternidade é frequentemente apresentada como uma experiência de amor, realização e felicidade. Embora esses sentimentos façam parte da vida de muitas mulheres, pesquisas recentes revelam uma realidade mais complexa e que merece atenção: a sobrecarga emocional enfrentada por milhares de mães brasileiras.
Segundo levantamento da plataforma De Mãe em Mãe, 66% das mães classificam sua saúde mental como ruim, péssima ou apenas regular. Outro estudo realizado pela B2Mamy e Kiddle Pass apontou que 91% das mães apresentam sinais de esgotamento físico e emocional relacionados à maternidade. Os números revelam uma situação que deixou de ser individual para se tornar uma questão social.
Além dos cuidados com os filhos, muitas mulheres acumulam responsabilidades profissionais, domésticas e familiares. Existe ainda a chamada carga mental invisível, composta pelas preocupações constantes com alimentação, escola, saúde, consultas médicas, atividades extracurriculares e organização da rotina familiar. Mesmo quando não estão executando tarefas, muitas mães continuam mentalmente ocupadas.
Estudos da Universidade de São Paulo indicam que cerca de 25% das brasileiras desenvolvem sintomas de depressão após o parto. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz também identificaram índices expressivos de sofrimento emocional no período pós-parto, reforçando a necessidade de acompanhamento e acolhimento adequados.
A situação torna-se ainda mais desafiadora quando há falta de rede de apoio. Muitas mulheres enfrentam a maternidade praticamente sozinhas, dividindo-se entre trabalho, casa e filhos, enquanto tentam corresponder às expectativas de uma sociedade, que frequentemente exige perfeição.
Talvez seja hora de substituir a pergunta “como ela consegue dar conta de tudo?” por outra mais importante: “como podemos ajudá-la?”. Afinal, cuidar de quem cuida é também uma forma de cuidar do futuro.
A dor menstrual que o sistema não enxerga
Para milhões de mulheres, a menstruação é acompanhada por dores intensas, que interferem na rotina, no trabalho, nos estudos e na qualidade de vida. Ainda assim, muitas dessas queixas continuam sendo minimizadas ou tratadas como algo normal.
Estima-se que a endometriose afete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo. No Brasil, milhões convivem com a doença, muitas vezes durante anos, sem diagnóstico adequado. Diversas pacientes relatam ter consultado vários profissionais antes de receber uma explicação para dores que já comprometiam sua vida pessoal e profissional.
O problema não está apenas na doença, mas também na forma como a dor feminina foi historicamente encarada. Durante gerações, muitas mulheres ouviram que cólicas intensas eram parte natural da condição feminina e que deveriam simplesmente suportá-las.
Quando a dor é normalizada, o diagnóstico atrasa e o sofrimento se prolonga. O impacto vai além do aspecto físico, afetando saúde mental, produtividade, relacionamentos e autoestima.
Nos últimos anos, especialistas têm chamado atenção para a necessidade de ouvir mais atentamente os relatos das pacientes. Dor incapacitante não deve ser considerada normal apenas porque é frequente.
Reconhecer a dor feminina é reconhecer a importância da saúde da mulher. E toda mulher merece ser ouvida quando diz que algo não está bem.