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O jogo não é produzir mais. É pensar melhor antes de produzir

Eu não vejo a Inteligência Artificial como um atalho para evitar pensar. Para mim, ela é uma parceira de pensamento

Anselmo Albuquerque

Publicado: 05/03/2026 às 11:12

Inteligência Artificial pode adicionar 13 pontos percentuais à economia brasileira em dez anos/Gerado por IA

Inteligência Artificial pode adicionar 13 pontos percentuais à economia brasileira em dez anos (Gerado por IA)

Eu não vejo a Inteligência Artificial como um atalho para evitar pensar. Para mim, ela é uma parceira de pensamento. Nos últimos anos, tenho observado algo curioso dentro das empresas. A produção de conteúdo explodiu. Relatórios mais longos, apresentações mais bem acabadas, textos gerados em uma velocidade que antes era impensável. Ainda assim, a sensação geral não é de mais clareza. É de mais barulho.

Foi nesse contexto que conheci o conceito de Workslop. Ele descreve perfeitamente algo que muita gente já sentia, mas não sabia nomear. Workslop é o conteúdo que parece trabalho, mas não gera valor. Ele ocupa espaço, consome tempo e cria a ilusão de produtividade. No fim, não orienta decisões e ainda gera retrabalho.

Quem nunca recebeu um documento com dezenas de páginas, cheio de marcadores, tópicos e divisões, e percebeu que nada do que estava ali ajudava de fato a decidir o próximo passo? Tudo parecia organizado, mas faltava direção. O problema não é a Inteligência Artificial. O problema é o uso sem critério. Quando a IA é usada apenas para acelerar a produção, sem intenção clara, ela amplifica a desorganização que já existia. Mais texto não significa mais entendimento. Mais páginas não significam melhores decisões. A ilusão de eficiência nasce justamente dessa confusão entre velocidade e clareza.

Tenho visto muitas organizações adotando IA como se fosse uma solução automática. Mas IA não pensa sozinha. Ela amplia o que recebe. Se a pergunta é ruim, o contexto é fraco e o objetivo é nebuloso, o resultado só pode ser ruído em escala. Estudos recentes sobre adoção de IA nas empresas reforçam algo que eu vejo na prática todos os dias: o diferencial não é técnico. É humano. O que separa quem extrai valor real da IA de quem só produz Workslop são competências como pensamento estratégico, capacidade de formular bonsproblemas, curadoria, revisão crítica e responsabilidade intelectual sobre o que é entregue.

Outro ponto que não dá para ignorar é a governança. Automatizar sem supervisão, escalar decisões sem revisão e delegar julgamento à máquina não é inovação. É fragilidade. A tecnologia amplia tanto boas decisões quanto erros mal pensados.

Por isso, sempre digo: quem usa IA para evitar pensar não está ganhando eficiência. Está terceirizando o próprio critério. E isso cobra um preço alto em forma de retrabalho, desgaste e perda de confiança. Existe, sim, pensamento estratégico aliado à IA. Mas ele começa antes do prompt. Começa quando alguém decide o que realmente precisa ser resolvido, para quem, com qual impacto esperado e com quais limites. A tecnologia entra depois, como parceira, não como atalho. Hoje, gerar conteúdo ficou fácil. Clareza, não. E cada vez mais, a verdadeira vantagem competitiva está em quem pensa melhor antes de produzir.

Anselmo Albuquerque - Publicitário, Estrategista e entusiasta em IA

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