A decisão recente da Assembleia Geral da ONU de reconhecer o tráfico de africanos escravizados como o maior crime da história da humanidade tem um peso que vai além da diplomacia. É um gesto que tenta organizar a memória do mundo, um reconhecimento básico de um sistema que ajudou a formar economias, sociedades e desigualdades que continuam aí, diante dos nossos olhos e presentes na vida de milhões de pessoas.
A resolução, apresentada por Gana, foi aprovada por 123 países, incluindo o Brasil. Ainda assim, três votos contrários chamam atenção logo de cara. Estados Unidos, Israel e Argentina decidiram votar contra o reconhecimento de algo que, do ponto de vista histórico, é difícil de contestar. Ao mesmo tempo, a União Europeia e o Reino Unido preferiram se abster, alegando que o texto poderia criar uma “hierarquia entre crimes contra a humanidade” e demonstrando incômodo com a ideia de reparações.
Essas posições dizem mais do que parece. Mostram como ainda existe dificuldade de encarar o passado quando ele exige responsabilidade. Não é só um debate diplomático, é uma escolha sobre como lidar com a própria história e com suas consequências no presente.
A escravidão, no contexto do tráfico de africanos escravizados para as Américas, não foi um episódio isolado. Foi um sistema mantido durante séculos, que arrancou cerca de 12,5 milhões de pessoas de suas terras. Esse processo gerou riqueza, sustentou economias e ajudou a estruturar desigualdades que continuam presentes hoje. Ignorar isso é tratar o problema como algo encerrado, quando ele ainda influencia relações, oportunidades e a vida real de muita gente.
O argumento da “hierarquia de crimes” desvia o foco. Reconhecer o peso de um sistema longo e brutal não diminui outras tragédias. O que está em jogo é a dimensão de um modelo desumano que deixou marcas profundas e ainda visíveis no cotidiano.
A resistência às reparações reforça isso. Quando o tema entra, o tom muda. O debate deixa de ser simbólico e passa a envolver responsabilidade concreta. Não se trata só de dinheiro, mas de reconhecer que o passado segue presente e exige resposta. É admitir que há uma dívida histórica que nunca foi enfrentada de verdade.
Nesse contexto, os votos contrários ganham outro peso. Não são apenas posições isoladas. São escolhas políticas claras. É a decisão de virar o rosto diante de um crime que ajudou a construir o mundo atual e que ainda sustenta desigualdades profundas.
Fica difícil não enxergar o padrão. Países que falam em liberdade e valores travam quando o assunto é responsabilidade histórica. Preferem discutir o texto, levantar dúvidas e argumentos técnicos, do que encarar o problema de frente.
A abstenção europeia segue o mesmo caminho. Não enfrenta, mas também não assume. Evita o desgaste, mas mostra o incômodo diante de um tema que toca diretamente na própria história do continente e nas bases de sua riqueza.
O Brasil, ao votar a favor, não resolve suas contradições, mas assume uma posição importante. Reconhece que o problema existe e precisa ser enfrentado, ainda que isso não seja simples.
No fim, o que essa votação mostra é que nem o básico é consenso. E isso diz muito sobre o tempo em que a gente vive, um tempo em que até o reconhecimento de uma injustiça evidente ainda encontra resistência.
Não dá pra construir futuro de verdade quando o passado continua sendo evitado.
*Jornalista e mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco