A barbárie disfarçada de modernidade
Nota-se que o discurso do ódio segue corroendo a base da democracia e a confiança no sistema jurídico
Publicado: 24/08/2026 às 07:43
Extremismo (Magnific)
A questão do extremismo político tem sido alvo de severas críticas no noticiário internacional, seja de direita ou de esquerda. Nota-se que o discurso do ódio segue corroendo a base da democracia e a confiança no sistema jurídico ao deslegitimar as instituições, desumanizar grupos vulneráveis e transformar o debate público em um ambiente de hostilidade. Essa questão, de notória atualidade, está no centro do livro “Downplaying Extremism? How the State Approaches Right-Wing and Left-Wing Extremist Threats” ("Como o Estado lida com as ameaças extremistas de direita e de esquerda?"), obra recentemente lançada pela prestigiada Cambridge University Press — na avaliação dos especialistas, a principal editora britânica de títulos não ficcionais e a segunda maior editora universitária do mundo. Os autores, Jeyhun Alizade, Rafaela Dancygier e Jonathan Homola, argumentam que, quando a política se corrompe por ideologias extremas, o debate e a pluralidade são substituídos pela aniquilação de um "inimigo", o que destrói o chamado "mundo comum", necessário para a vida democrática.
Antes deles, Hannah Arendt sintetizou com precisão esse problema nas obras “As Origens do Totalitarismo” e “Verdade e Política”. Arendt aponta que o pensamento ideológico transforma fatos em opiniões maleáveis e cria a figura do "inimigo objetivo". A intenção desse mecanismo, segundo ela, não é solucionar crises concretas, mas legitimar a eliminação do opositor como parte de uma cruzada permanente, tornando a convivência impossível. Para a filósofa, a política só existe porque vivemos entre iguais e diferentes em um espaço público de diálogo. Quando o objetivo passa a ser a destruição mútua em vez da ação coletiva, o "mundo comum" — entendido como o arranjo institucional e o respeito aos fatos que nos permitem negociar nossas diferenças — desaba, gerando isolamento e paralisia social.
A ideia de que o foco central se degenera para a destruição mútua, em que o dano ao oponente importa mais do que a preservação da ordem coletiva ou do próprio grupo, encaixa-se perfeitamente no final da Idade Média (séculos XIV e XV) e, de forma ainda mais evidente, na transição para a Idade Moderna. Esse período foi marcado por crises profundas que quebraram o senso de coletividade, segundo Johan Huizinga, no clássico “O Outono da Idade Média”, a principal referência sobre o tema. Sem deixar de ser tributário de uma tradição historiográfica, seu trabalho também é profundamente inovador.
O extremismo político de hoje em quase nada difere do Medieval; mudou apenas o uso de armas. Uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal revelou um grupo que planejava, pela internet, atentados contra políticos e prédios públicos em Brasília. Eram homens que nunca tinham se encontrado pessoalmente. Nas conversas, monitoradas pela autoridade, eles falavam em fabricar explosivos e disseminavam discursos de ódio pela rede.
Marcus Prado - Jornalista