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O ciclo trágico da desmedida queda

Por iniciativa da Paróquia de São José (Casa Caiada/Olinda), sob a coordenação do padre Charles Araujo, tem-se desenvolvido um ciclo semanal de preleções bíblicas voltado à discussão da atualidade e à relevância de grandes temas das Escrituras Sagradas

Diario de Pernambuco

Publicado: 21/09/2026 às 08:00

Tradição dos tapetes na data de Corpus Christi, na Paróquia De Nossa Senhora do Rosário, Pina, Recife./Nivaldo Fran

Tradição dos tapetes na data de Corpus Christi, na Paróquia De Nossa Senhora do Rosário, Pina, Recife. (Nivaldo Fran)

Por Marcos Prado*

“A mentira constante não tem como propósito fazer as pessoas acreditar numa mentira, mas sim garantir que ninguém acredite mais em nada. Um povo que não consegue mais distinguir a verdade da falsidade não consegue distinguir o bem do mal. E um povo assim, privado da capacidade de pensar e julgar, está, sem saber e sem querer, completamente sujeito ao domínio das mentiras. Com um povo assim, você pode fazer o que quiser.” — Hannah Arendt.

Por iniciativa da Paróquia de São José (Casa Caiada/Olinda), sob a coordenação do padre Charles Araujo, tem-se desenvolvido um ciclo semanal de preleções bíblicas voltado à discussão da atualidade e à relevância de grandes temas das Escrituras Sagradas. A segunda parte dedicou-se à análise do apóstolo e profeta Daniel, com ênfase no que remete à célebre visão profética dos fatores determinantes para o declínio do Império Babilônico. Como (apenas) ouvinte fiz um paralelo entre a visão escatológica do profeta Daniel, a teoria da esfera pública formulada por Jürgen Habermas e a monumentalidade trágica inerente à epopeia homérica.

Tal cotejo teórico serviu para inspirar minhas impressões sobre a conjuntura política brasileira contemporânea — caracterizada por um cenário de profunda apreensão e descontentamento — e o atual momento institucional do país. Cada um desses pilares toca em uma fratura exposta da nossa realidade política, social e moral. No livro bíblico de Daniel, há uma recorrência de impérios que caem por perderem a medida da justiça, além da famosa cena do banquete de Belsazar. “A injustiça brotou na Babilônia, vinda dos velhos juízes que passam por guias do povo”. Esse trecho está em Daniel 13, versículo 5 (nas Bíblias católicas que seguem o cânon dos Setenta, conhecido como Septuaginta — a mais antiga tradução grega do Antigo Testamento, realizada em Alexandria, no Egito, entre os séculos III e I a.C., e que serviu de base para a Igreja Primitiva). O paralelo com o Brasil é evidente: vivenciamos um país onde a retórica muitas vezes substitui o substantivo, e o espetáculo político opera como um banquete à beira do abismo. É inimaginável mensurar o custo desse banquete.

O Brasil de hoje parece oscilar entre a euforia de promessas salvíficas (profecias seculares de redenção nacional) e a angústia de um futuro incerto, em que o debate público frequentemente se apega a dogmas intransigentes, lembrando a obstinação dos reinos antigos diante de crises estruturais que se recusavam a enxergar. Jurgen Habermas dedicou sua vida intelectual a defender que a democracia só sobrevive se houver uma “esfera pública” pautada pela razão comunicativa — isto é, pelo diálogo transparente, orientado ao entendimento mútuo e livre de coerções.

Assistimos, no entanto, à fragmentação da verdade em “bolhas” impermeáveis. A colonização das redes digitais por algoritmos de ódio impede o agir comunicativo, substituindo o argumento racional pelo clamor identitário e pelo ruído permanente: exatamente o oposto do que Habermas julgava indispensável para a saúde democrática.

Nos poemas homéricos (A Odisseia), a condição humana é marcada pela hybris (a desmedida, a soberba que desafia os deuses) e pela longa e dolorosa travessia para retornar à ordem, à casa. O Brasil contemporâneo vive a sua própria odisseia: uma nação em perpétua viagem, naufragando ciclicamente em suas próprias contradições.

Marcos Prado é jornalista*

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