Eleições 2026: tons da disputa pelo Governo de Pernambuco começam a ficar nítidos
Carnaval foi o ponto de partida para que pré-candidatos ao governo do estado demarcassem território em locais estratégicos e aparecessem ao lado de aliados
Publicado: 23/02/2026 às 14:30
Ladeiras de Olinda (Rafael Vieira/DP Foto)
Passado o carnaval, o desenho das eleições de 2026 começou a ganhar contornos mais nítidos em Pernambuco. Com a disputa pelo governo do estado concentrada entre a governadora Raquel Lyra (PSD), que tentará a reeleição, e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), provável candidato ao Palácio do Campo das Princesas, tem se tornado cada vez mais frequente que ambos marquem presença em polos estratégicos e, sobretudo, apareçam publicamente ao lado de aliados. Em ano eleitoral, o gesto está longe de ser casual. Ao mesmo tempo, a corrida pelas duas vagas ao Senado promete ser um dos pontos mais delicados do pleito nos próximos meses.
Para o internacionalista e doutor em Ciência Política pela UFPE, Gustavo Rocha, o simbolismo é claro. “O carnaval sempre foi político. Aparecer ao lado de aliados, de grandes apoios políticos, é estratégico. É um palco e uma vitrine; uma sinalização de quão intensa vai ser a disputa esse ano. Acredito que a disputa deva ir muito além do debate político e entrar, infelizmente, nos ataques e tentativas de desconstrução. As críticas veladas agora do carnaval, devem deixar de ser o tom à medida que a disputa aquecer”, avalia.
O cientista político Hely Ferreira analisa que a exposição pública é apenas parte da estratégia. “A questão da estar junto dos seus aliados é importante porque mostra força, mas o mais importante no carnaval não é mostrar os aliados, é nos bastidores a capacidade de aglutinar apoios para as eleições”, pontua.
Durante a folia deste ano, a governadora fez questão de percorrer diversas partes de Pernambuco, reforçando o apoio do governo do estado à festa em todas as regiões. Raquel esteve em Olinda, Recife e Camaragibe, na Região Metropolitana; em Salgueiro, no Sertão Central; em Bezerros e Pesqueira, no Agreste; e em Nazaré da Mata, Paudalho e Aliança, na Zona da Mata Norte.
A maioria dos municípios pernambucanos que a chefe do Executivo visitou, são onde os gestores são seus aliados e integram sua base. Sendo somente o gestor da capital oficialmente da oposição. Na ocasião da abertura do carnaval, a governadora optou por manter distância de seu oponente e assistiu o show do dia em um camarote diferente.
No Carnaval do Recife, João Campos fez questão de posar ao lado de seus aliados, desde vereadores até o presidente Lula, no Galo da Madrugada. O prefeito também passou por alguns dos 50 polos da festa durante os seis dias de folia, como no polo do Marco Zero, Casa Amarela, Ibura, Poço da Panela, Campo Grande, Jardim São Paulo e no bairro do Recife, onde festejou ao lado da população e de seus eleitores e aliados na capital. O prefeito ainda visitou o Carnaval de Olinda, onde foi acompanhado por aliados do estado e da própria cidade.
Campo progressista tem novo candidato
Encerrado o carnaval, o campo progressista independente, com a federação Psol/Rede, que já tinha a pré-candidatura do ex-vereador Ivan Moraes (Psol) ao governo como certa, ganhou mais um candidato. Na Quarta de Cinzas, a Rede anunciou Alfredo Gomes, reitor da UFPE, também para se colocar na disputa. Para o Senado, que já tinha como pré-candidata a vereadora Jô Cavalcanti (Psol), também foi apresentado o nome de Paulo Rubem Santiago.
O cientista político Hely Ferreira lembra que os conflitos não são novos: “Essa questão da federação especificamente em Pernambuco, do Psol com a Rede, tem dado muitas celeumas. Basta lembrar que na eleição municipal também teve um problema como este. Resta saber se agora isso vai vingar, como é que vai ser esse cenário. É uma federação que não tem unidade.”
No entanto, o doutor em Ciência Política pela UFPE, Gustavo Rocha, avalia que, no cenário atual, as candidaturas alternativas tendem a funcionar mais como linha auxiliar do que como ameaça real à polarização.
Ferreira acredita que qualquer outra candidatura não terá impacto eleitoral diante da polarização iminente da disputa de João e Raquel. “Não há espaço para a terceira via nas eleições de Pernambuco este ano. Pode-se ter várias candidaturas, mas a disputa ficará com a governadora e com o prefeito da cidade do Recife, se ele for candidato a governador.”
Relação de Álvaro e João
Outro movimento que chamou atenção foi a aproximação de João Campos com o presidente da Alepe, Álvaro Porto (PSDB). O nome do deputado tem sido cotado como possível vice na chapa do prefeito. Álvaro é de Canhotinho, no Agreste do estado, onde João tem um alcance menor, e ajudaria na disputa do governo.
Para Hely Ferreira, o fator regional pesa: “A presença de Álvaro Porto mostraria uma força também da chapa no que diz respeito ao Agreste, que é uma região que basicamente não é contemplada pelos os nomes que são postos como possíveis na chapa do prefeito.”
Ele acrescenta: “É a questão do mapa geográfico em Pernambuco, que vai dar densidade eleitoral. O nome de Álvaro Porto traz força assim até para mostrar a pluralidade da chapa com relação à geografia do estado.”
Gustavo Rocha ainda lembra que João vem ampliando alianças no interior desde as eleições municipais, quando percorreu diversas cidades apoiando candidatos aliados. A leitura é que a disputa estadual é “geográfica” e depende de rede de apoios para enfrentar a máquina do governo.