Bullying: Comportamentos são alertas para familiares
Identificação precoce de mudanças no comportamento e diálogo aberto em casa são as principais ferramentas para interromper ciclos de violência emocional entre crianças e adolescentes
Publicado: 23/03/2026 às 07:00
Pais e responsáveis devem estar atentos ao sinais de bullying, diz psicóloga (Foto: Freepik)
Diante do desafio da manutenção de um ambiente escolar saudável, pais e responsáveis ocupam papel fundamental no apoio a crianças e adolescentes que passam por situações de bullying, destacam especialistas. De acordo com a psicóloga Luciana Inocêncio, o problema pode afetar profundamente a saúde mental de crianças e adolescentes, em função de desgastes emocionais progressivos nas vítimas. As consequências podem ser graves quando essas situações não são identificadas ou tratadas.
Ela reforça que os adultos devem estar atentos aos filhos e destaca alguns sinais que podem ser decorrentes dessa prática.
“A família inteira tem que estar atenta ao filho e olhá-lo. Hoje nós temos uma dificuldade de olhar para o filho e para o que fato está acontecendo, até por um estilo de vida de correria. Muitos pais hoje são ausentes nesse quesito. O primeiro sinal de alerta é o isolamento repentino, quando o adolescente começa a evitar amigos e família, passa mais tempo sozinho, não quer fazer as atividades, não se conecta com as pessoas como antes”, inicia.
Segundo a psicanalista, a resistência para ir à escola, desculpas frequentes para evitar aulas e atividades também são outros pontos que demandam atenção, além de queda no rendimento escolar e sintomas psicológicos e físicos, como ansiedade, depressão, alteração do sono e apetite. A profissional da saúde também orienta como os pais devem agir ao perceberem que os filhos estão sofrendo perseguições.
Identificação
“O bullying é de fato uma violência emocional e precisa de intervenção imediata. Se a família identificou isso, tem que tomar uma atitude e comunicar a escola, porque ela tem responsabilidade. A partir do momento, que foi identificado, tem que agir, porque senão acontecem essas tragédias. Quando se ignora esses sinais, nós vemos a tregédia”, explica a psicanalista.
Luciana alerta, ainda, para o controle das redes sociais. Ela diz que muitos adolescentes se expressam sobre os acontecimentos na internet, ao invés de expor diretamente as situações para os responsáveis: “O adolescente, muitas vezes, não avisa o que está sendo destruído dentro dele, ele dá sinal”.
A recomendação é buscar uma “presença afetiva” e não apenas física. Segundo Luciana, a única via de acolhimento eficaz é estabelecer um tempo de qualidade para que o adolescente se sinta seguro para expor sua vulnerabilidade sem medo de julgamentos antes que o sofrimento se transforme em tragédia ou automutilação.
“O adolescente precisa de proteção, cuidado, e acolhimento. É pegar na mão dele e dizer: ‘Eu estou aqui, vamos juntos’. Isso é o principal”, reforça. Ainda conforme diz a terapeuta, o acolhimento familiar é importante, mas sozinho, não é suficiente. “A família não consegue sozinha, às vezes precisa de acompanhamento psicológico. Em alguns casos, o bullying já tem por tanto tempo e danificou tanto o psicológico desse adolescente, que é preciso até intervenção psiquiátrica. Para tirar o adolescente daquela depressão, daquele estado de angústia, de ansiedade”, explica.
Ela destaca, ainda, que a atual geração tem condições psicológicas próprias: “Nós estamos falando de uma geração que muito mais frágil emocionalmente e psicologicamente, até por conta de estruturas familiares. Temos toda essa fragilidade, então a primeira coisa é acolher”, reitera.
É comum que muitos casos de bullying aconteçam na escola, por ser o espaço de maior convívio social durante a infância e adolescência. Nessas circunstâncias, Luciana orienta que a instituição deve ser o canal central de resolução: “O certo é entrar em contato com a escola. É ela que tem que fazer essa mediação entre os pais do agressor e os da vítima”. A psicóloga alerta que o contato direto entre famílias pode ser mais difícil e o ideal é que a escola trabalhe para minimizar os danos e evitar a exposição dos alunos.