Empresas bloqueiam mais de 100 usuários e registram mais de 50 mil viagens no 1º mês de patinetes no Recife
Expansão da micromobilidade avança na capital, mas enfrenta falta de regulação e problemas na infraestrutura, aponta engenheiro
Publicado: 20/04/2026 às 06:00
Adolescentes flagrados utilizando patinetes de forma inadequada no Recife (Foto: Crysli Viana/DP Foto)
Mais de 100 usuários já foram bloqueados por uso irregular dos patinetes elétricos no Recife no primeiro mês de operação. O dado surge em meio a uma rápida adesão ao serviço, que já soma mais de 50 mil viagens na cidade, segundo as empresas Jet e Woosh, que operam na capital. No entanto, a forma arriscada com que muitos conduzem o equipamento tem chamado a atenção.
Embora as operadoras afirmem não ter registrado acidentes até o momento, o engenheiro civil Ivan Carlos Cunha, do Instituto de Trânsito e Mobilidade Sustentável (ITMS), aponta os perigos para esses condutores.
“Os patinetes respondem a uma demanda referente ao que chamamos de micromobilidade. Ele está muito atrelado a melhorar o que a gente chama de transporte ativo. A pessoa, em vez de andar de bicicleta ou a pé, que são formas de transporte ativo, tem a oportunidade de utilizar o patinete”, pontua.
“Eu, particularmente, tenho algumas preocupações. A primeira delas é a segurança. Eu tenho observado que no Recife ninguém faz uso de capacete. Para se ter ideia, no ano passado foram 37 mil mortes no trânsito em todo o Brasil”, observa o engenheiro.
A circulação no Recife segue normas de segurança, com uso permitido apenas para maiores de 18 anos, respeitando limites de velocidade e áreas específicas, como ciclovias, ciclofaixas e vias com velocidade reduzida. Além disso, o uso deve ser restrito a uma pessoa por equipamento, sendo ela maior de 18 anos. O condutor não pode ultrapassar 20km/h e nas áreas de pedestres a velocidade é limitada a 6 km/h.
Outro ponto que Ivan carlos observa é o uso dos patinetes em locais inadequados, como calçadas, e por usuários sem conhecimento das regras de trânsito.
“Quem anda de patinete na rua e não é habilitado muitas vezes não conhece as regras de trânsito”, afirma. O engenheiro também destaca a ausência de regulamentação mais clara como um dos principais desafios para o funcionamento do serviço. “A minha avaliação é que a situação está meio solta, precisando de uma abordagem do poder público para definir o que pode e o que não pode.”
O engenheiro pontua que a capital pernambucana ainda está se familiarizando com os patinetes, apesar da rápida adesão. Diante deste cenário primário, algumas irregularidades podem ser observadas com mais frequência. “Quem não tem habilitação para dirigir um veículo não conhece as regras de trânsito. Então vai andar na contramão e usar calçadas”, afirma.
Atualmente, as duas operadoras somam 900 patinetes em circulação. Juntas, elas ultrapassam a marca de 50 mil viagens em poucas semanas. Segundo a Whoosh, são 300 patinetes distribuídos em áreas definidas em conjunto com o poder público. Em um mês, a empresa registrou mais de 20 mil viagens. Já a JET opera com 600 equipamentos e contabilizou, em 20 dias, 31.930 viagens realizadas por 5.860 usuários únicos.
Os dados apontam para preferência do urso em trajetos curtos e integrados a outros modais. No caso da JET, foram percorridos 96.982 quilômetros em menos de um mês. Em escala local, isso representa mais de 242 mil voltas na Praça do Marco Zero ou cerca de 6.900 percursos completos de ida e volta pela Orla de Boa Viagem.
Cada equipamento da empresa realiza, em média, 3,5 viagens por dia, com deslocamentos de cerca de 3 quilômetros por corrida. Já a Whoosh aponta média de 2 quilômetros por viagem e duração aproximada de 12 minutos, reforçando o perfil de uso voltado para pequenas distâncias.
As áreas com maior concentração de uso coincidem com regiões de maior fluxo urbano, como Boa Viagem, Recife Antigo, Graças, Jaqueira e Espinheiro, além do entorno do Marco Zero e da Orla. O modelo atende principalmente ao chamado “último quilômetro”, funcionando como complemento ao transporte público.
O primeiro mês de circulação dos patinetes elétricos foi marcado por uma série de registros de uso irregular do serviço em diferentes pontos da cidade. Imagens que circulam nas redes sociais mostram descumprimento das regras básicas e situações de risco.
Entre os casos, há vídeos em que três pessoas, um homem, uma mulher e um bebê, utilizam o mesmo patinete. Em outra gravação, dois adolescentes vestindo farda escolar aparecem dividindo o equipamento. Também foram registrados dois homens trafegando juntos em via pública, sendo que um deles utiliza tornozeleira eletrônica.
As irregularidades não se restringem ao uso dos veículos e há registros de abandono dos equipamentos em locais inadequados, como rio e canais.
A JET afirmou que episódios de vandalismo representam uma parcela mínima das operações e estão dentro do padrão observado em outras cidades onde atua. Segundo a operadora, os equipamentos possuem rastreamento por GPS em tempo real, o que facilita a recuperação e ajuda a coibir tentativas de uso indevido.
A empresa também informou que mantém uma equipe de monitoramento operacional 24 horas por dia, com protocolos de resposta imediata. De acordo com a JET, patinetes com indícios de avaria ou uso irregular são retirados de circulação assim que identificados. A operadora acrescenta ainda que mantém canais integrados com o poder público para comunicação rápida em situações relacionadas ao serviço.
Já a Whoosh destacou que os equipamentos contam com sistemas de geolocalização e modo antifurto, que permitem acompanhar a movimentação em tempo real. A empresa afirma manter uma equipe dedicada de monitoramento e segurança atuando 24 horas por dia, com o objetivo de reduzir ocorrências de perdas ou danos.
Segundo a Whoosh, a atuação conjunta com forças de segurança locais e a experiência em outras cidades brasileiras contribuem para o aprimoramento dos protocolos de controle e gestão da operação.
Impacto ambiental
As empresas também destacam os efeitos ambientais. A JET estima que o uso dos patinetes evitou a emissão de 16,5 toneladas de CO2 no período analisado, volume equivalente à capacidade anual de absorção de aproximadamente 750 árvores.
As duas operadoras afirmam manter monitoramento em tempo real da frota, com uso de geolocalização, telemetria e equipes de acompanhamento 24 horas por dia. Também relatam rotinas de manutenção preventiva e substituição de equipamentos danificados, além de cobertura de seguro em todas as viagens no caso da JET.
As empresas dizem manter ações educativas, como blitzes e treinamentos presenciais, para orientar os usuários.
Apesar das críticas, Ivan Carlos pontua o potencial de integração dos patinetes ao sistema de mobilidade urbana. “O patinete atende ao primeiro e ao último quilômetro. Pode dar capilaridade: da casa até o ponto de ônibus, por exemplo, e vice-versa. Mas isso ainda é pouco discutido no Brasil. Você não vê, por exemplo, bons estacionamentos próximos a terminais de ônibus para integração intermodal.”
Para o engenheiro, o modal deve ser tratado como complementar, e não como solução principal. “O patinete é uma inovação relevante na micromobilidade urbana. O impacto pode ser positivo, mas depende muito da regulação, da integração com o transporte coletivo e do contexto. Ele é mais uma alternativa, mas uma cidade como Recife não pode deixar de dar prioridade ao transporte coletivo.”