Maternidade tardia ressignifica experiência de ser mãe e reflete tendência social no Brasil
No Dia das Mães, o Diario de Pernambuco ouviu mãe que teve o primeiro filho aos 43 anos; especialista aponta que estigmas sociais devem ficar no passado
Publicado: 09/05/2026 às 06:00
Na percepção de Ana, a maternidade após os 35 anos é um ciclo à parte na vida de uma mulher (Foto: Sandy James/DP Foto)
Aos 43 anos, após quase duas décadas de tentativas e espera, Ana Lúcia Interaminense realizou o desejo de se tornar mãe. Hoje, aos 56, ela relembra a chegada do filho, Gabriel Henrique, como resultado de um processo marcado por expectativa, pressão social e persistência. "Era o tempo versus o desejo", resume.
A história de Ana representa uma realidade cada vez mais comum no Brasil: o aumento da maternidade após os 35 anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam crescimento no número de filhos de mulheres nessa faixa etária, entre 2010 e 2022. Em Pernambuco, o aumento foi de 54,4% no período, segundo o último Censo.
Mais do que uma tendência demográfica, o cenário reflete mudanças profundas no comportamento social e na forma como as mulheres encaram a maternidade. Estabilidade financeira, consolidação da carreira profissional, relacionamentos mais maduros e autonomia estão entre os fatores que contribuem para o adiamento da decisão de engravidar.
“Senti muita pressão (para engravidar). Hoje talvez seja mais tranquilo, porque as mulheres estão tendo filhos mais tarde, então não tem mais aquela pressão. Depois do casamento, as perguntas sobre filhos eram frequentes. Muitos chegaram para dizer que eu desistisse, não insistisse, porque ‘não tinha que ser’. Ficou meio frustrante”, relembra Ana Lúcia.
Ana recorreu aos procedimentos de reprodução assistida e conseguiu engravidar por meio de inseminação. Ela diz que, na época, esse contexto carregava um estigma de algo "errado" ou fora do padrão. "Fertilização artificial, até o nome assustava; parecia que estávamos fazendo algo errado", revela.
Apesar de tudo, Ana nunca desistiu do sonho de ser mãe. Ela destaca que a maternidade após os 35 anos é um ciclo à parte na vida de uma mulher. “Mães bem jovens têm inúmeras vantagens por serem jovens. Mas talvez nem tenham amadurecido o suficiente aquela vontade. Essa parte de ser mãe tardia concilia também porque você acaba concluindo algumas etapas da parte mais jovem: o estudo, a dedicação profissional”, acrescenta.
O estigma etário traz desafios no dia a dia, mas Ana não vê barreiras para a convivência com o filho Gabriel, que atualmente tem 12 anos. “Já perguntei se ele sente alguma necessidade que eu não consigo suprir, por eu ter uma idade mais avançada em relação à maioria das mães, e ele disse que não, porque todos os dias ele ouve o quanto ele foi desejado”, conta, emocionada.
"Quem quer engravidar tem todo o direito"
O obstetra e especialista em Saúde Materno-Infantil Alex Souza explica que a própria medicina passou a rever a forma como trata o tema. Há alguns anos, uma gestação tardia era atribuída quase exclusivamente aos riscos da situação.
“Antigamente, o termo ‘gestação tardia’ era usado de forma rígida e estigmatizante, já que essas gestantes apresentavam um risco maior de complicações. No entanto, assim como o termo ‘gestante idosa’, essa expressão é atualmente desaconselhada por rotular uma gravidez apenas pela idade da mãe. Hoje, entendemos que a idade, sozinha, não define a saúde de uma gestação. O termo recomendado é ‘gestantes com 35 anos ou mais’”, explica o médico.
Entre os riscos relacionados à gestação após os 35 anos, o obstetra aponta maior chance de hipertensão, diabetes gestacional, parto prematuro, alterações cromossômicas e cesariana, além de risco de certas condições genéticas para os bebês. Porém, com acompanhamento médico, a gestação se torna cada dia mais segura.
“A gravidez após os 35 anos era tratada quase automaticamente como uma situação de ‘alto risco'. Antes, havia um discurso muito centrado no medo. Agora informamos sem assustar. A mulher precisa conhecer os riscos reais, mas também entender que muitas gestações após os 35 ou até 40 anos evoluem muito bem quando existe acompanhamento adequado”, esclarece Alex Souza.
O médico lembra, ainda, que os métodos de reprodução assistida também têm papel fundamental na decisão das mulheres de gestarem mais tardiamente.
“Hoje é mais fácil que a mulher com idade mais avançada possa gestar. Têm muitos casos bem-sucedidos acima de 48 anos, com fertilização e inseminação. Isso facilitou bastante. Ou seja, o que importa é o desejo. Nós dizemos: "Quem quer engravidar tem todo o direito". Vamos em frente e vamos apoiar”, finaliza.