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1ª etapa de monitoramento prevê captura e marcação de 50 tubarões a partir de julho, diz Cemit

Ação foi anunciada após reunião extraordinária do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), nesta quinta-feira (4)

Cadu Silva

Publicado: 04/06/2026 às 14:13

Danise Alves, Secretaria executiva do Cemit/Foto: Cadu Silva/DP

Danise Alves, Secretaria executiva do Cemit (Foto: Cadu Silva/DP)

A partir de julho, pesquisadores devem iniciar a captura e marcação de 50 tubarões no litoral pernambucano, retomando o monitoramento científico dos animais na área.

A medida foi uma das principais definições da reunião extraordinária do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), realizada nesta quinta-feira (4), no Parque Estadual de Dois Irmãos, na Zona Norte do Recife.

A ação anunciada ocorre após mais de uma década sem estudos voltados ao acompanhamento dos padrões de deslocamento das espécies associadas aos incidentes registrados entre este domingo (31) e segunda-feira (1º), que vitimaram uma criança de 11 anos e uma jovem de 19, nas praias de Piedade e Boa Viagem, respectivamente.

Segundo a secretária executiva do Cemit, Danise Alves, o resultado final do edital responsável pelo projeto foi divulgado em 14 de maio e o termo de outorga foi assinado na mesma data. A expectativa é que os recursos sejam liberados ainda em junho para que as equipes iniciem as atividades de campo no mês seguinte.

“Agora em junho o dinheiro vai estar em conta para que a equipe faça toda a mobilização necessária e comece a marcar os animais”, afirmou.

O projeto integra o edital Cientista Arretado, iniciativa desenvolvida pelo Governo de Pernambuco.

Responsável pela pesquisa, o professor Paulo Oliveira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), explica que o estudo pretende preencher uma lacuna de conhecimento sobre os padrões de movimentação dos tubarões na costa pernambucana.

Segundo ele, o monitoramento permitirá identificar rotas de deslocamento, áreas de permanência, locais de alimentação e possíveis regiões utilizadas para reprodução.

“Vamos conseguir entender de onde esses animais vêm, para onde vão, quanto tempo permanecem em determinadas áreas e se essa permanência está relacionada à alimentação ou à reprodução. São perguntas que hoje ainda não conseguimos responder e que o monitoramento permitirá esclarecer”, explicou.

Como será feita a captura e marcação dos tubarões

O estudo prevê a captura de 50 tubarões por equipes especializadas, que já possuem experiência em trabalhos semelhantes.

Antes mesmo da captura dos animais, os pesquisadores irão instalar uma rede acústica em pontos estratégicos do litoral. Os equipamentos serão posicionados no fundo do mar e funcionarão como receptores capazes de registrar a passagem dos tubarões monitorados.

As áreas onde ocorrerão as capturas ainda serão definidas pelos pesquisadores em conjunto com o Cemit. A expectativa é priorizar locais onde há indícios de alimentação, reprodução ou permanência frequente das espécies estudadas.

A captura será realizada por meio de redes espinhéis instaladas em alto-mar. Após serem capturados, os animais serão levados para uma embarcação preparada para a realização dos procedimentos científicos.

No barco, os pesquisadores realizarão um protocolo completo de identificação e avaliação biológica.

Inicialmente, será feita a identificação da espécie e a medição do animal. Em seguida, serão coletadas amostras de sangue e tecido para análises laboratoriais.

Os pesquisadores também irão realizar exames capazes de fornecer informações sobre a saúde dos animais, presença de contaminantes ambientais e aspectos relacionados à reprodução.

No caso das fêmeas, por exemplo, poderão ser realizados exames de ultrassonografia para verificar se estão grávidas, permitindo aos cientistas identificar possíveis áreas de reprodução ao longo da costa.

Após essa etapa, os tubarões receberão um transmissor eletrônico implantado por meio de uma pequena incisão na região abdominal ventral.

O equipamento, semelhante a um microchip e com tamanho aproximado ao de uma pilha pequena, funciona como um transmissor individual. Cada animal receberá uma identificação própria, permitindo aos pesquisadores acompanhar seus deslocamentos ao longo do litoral.

Segundo a secretaria, sempre que um dos tubarões monitorados passar próximo aos receptores instalados no fundo do mar, o sistema registrará automaticamente informações como data, horário e localização da passagem do animal.

Segundo Danise Alves, todo o procedimento é realizado de forma rápida para minimizar o estresse dos tubarões.

“A equipe já possui uma experiência de mais de 30 anos nesse tipo de trabalho. O procedimento dura cerca de 15 minutos e o animal retorna ao mar logo em seguida”, explicou.

Além do monitoramento dos deslocamentos, os pesquisadores também pretendem analisar a conectividade entre os tubarões encontrados na costa pernambucana e os animais monitorados em Fernando de Noronha.

A expectativa é que os dados obtidos ajudem a compreender melhor a utilização das áreas costeiras pelas espécies consideradas de maior interesse para a pesquisa, especialmente os tubarões-tigre e cabeça-chata, além de identificar a eventual presença de outras espécies utilizando a região.

Segundo Paulo Oliveira, o estudo também permitirá avaliar a saúde dos animais e o equilíbrio ambiental dos ecossistemas costeiros. A ocorrência regular de determinadas espécies pode servir como indicativo da qualidade ambiental e da disponibilidade de alimento nessas áreas.

Ainda não é possível explicar os incidentes recentes

Durante a reunião, Danise Alves afirmou que ainda não existem informações científicas suficientes para explicar o aumento dos incidentes registrados recentemente no litoral pernambucano.

Segundo ela, Pernambuco passou mais de dez anos sem estudos voltados ao monitoramento dos padrões de deslocamento dos tubarões, o que dificulta a identificação das causas para os casos recentes.

“Hoje a gente não consegue responder exatamente o que está acontecendo. O que a gente consegue responder é o que pode ser feito. Precisamos gerar conhecimento científico para compreender melhor esses padrões”, afirmou.

A secretária destacou que o monitoramento permitirá, futuramente, identificar áreas de maior e menor risco e subsidiar decisões relacionadas à gestão da faixa costeira.

Educação ambiental será intensificada

Além do monitoramento, o Cemit definiu o fortalecimento das ações de educação ambiental em todo o litoral pernambucano.

A proposta é reunir uma rede formada por mais de 60 educadores ambientais e instituições que já desenvolvem projetos na área para ampliar as atividades de conscientização junto à população.

Segundo Danise Alves, as ações de educação ambiental vêm sendo estruturadas desde 2023, quando o Governo de Pernambuco lançou o Plano de Educação Ambiental para Segurança Aquática e Prevenção de Incidentes com Tubarões.

O documento reúne cerca de 50 ações voltadas à conscientização da população e à redução dos riscos de incidentes.

A partir do plano, foram lançados editais para atividades em praias, escolas, centros comerciais e outros espaços públicos, além da produção de materiais didáticos, cartilhas, aplicativos, plataformas digitais e pesquisas relacionadas à percepção dos riscos associados ao ambiente marinho.

De acordo com a secretária, atualmente 13 projetos ligados à educação ambiental e prevenção já estão em execução. O monitoramento dos tubarões será o 14º projeto financiado pelo Estado dentro dessa estratégia.

As ações devem ser intensificadas principalmente durante as férias escolares de julho, período em que aumenta a presença de banhistas nas praias.

Segundo Danise Alves, os meses de maio, junho e julho historicamente concentram um número maior de incidentes. No caso de julho, além das condições ambientais características do período chuvoso, há também o aumento da frequência de crianças, adolescentes e famílias nas praias por causa das férias escolares.

Por isso, o Cemit definiu que as campanhas educativas serão reforçadas especificamente nesse período, com foco nos frequentadores das praias e nas áreas onde ocorreram os incidentes mais recentes.

Segundo Danise Alves, o objetivo é reforçar orientações sobre condições de risco frequentemente associadas aos incidentes, como maré alta, água turva e desrespeito à sinalização existente.

A iniciativa também pretende integrar projetos que atualmente atuam de forma independente para ampliar o alcance das campanhas educativas.

A secretária destacou ainda que Pernambuco passou quase três anos sem registrar incidentes graves envolvendo tubarões, resultado que, segundo ela, também está relacionado ao fortalecimento das ações de prevenção e conscientização desenvolvidas nos últimos anos.

Reposição de placas e reforço das ações de prevenção

Outro encaminhamento discutido durante a reunião foi a reposição de aproximadamente 150 placas de alerta ao longo do litoral.

De acordo com Danise Alves, mais de 40 placas foram perdidas, furtadas ou danificadas e precisarão ser substituídas.

A medida faz parte do conjunto de ações financiadas pelos investimentos realizados desde 2023.

Segundo o balanço atualizado apresentado pelo Estado durante a reunião, os investimentos diretos e indiretos voltados à segurança aquática e à prevenção de incidentes já ultrapassam R$ 8 milhões.

Os recursos foram destinados ao fortalecimento do Grupamento de Bombeiros Marítimos, aquisição de motos aquáticas, compra de equipamentos de proteção, projetos de educação ambiental, pesquisas científicas, eventos técnicos e acordos de cooperação com universidades.

Também estão incluídas ações como reformas de guaritas, aquisição de equipamentos de salvamento aquático e outras medidas voltadas ao atendimento de ocorrências no litoral.

Segundo o Cemit, as ações contam ainda com a participação de órgãos municipais, incluindo a Guarda Civil Municipal do Jaboatão dos Guararapes, que atua no monitoramento das áreas onde já existem restrições para banho e atividades náuticas.

Fechamento de praias não foi definido

Apesar das discussões sobre possíveis restrições em áreas consideradas de risco, nenhuma medida de fechamento ou interdição de praias foi definida durante a reunião extraordinária.

Segundo Paulo Oliveira, o tema continuará sendo debatido pelo comitê, mas ainda não há base científica suficiente para justificar a adoção imediata de restrições.

“O Cemit não descarta nenhuma possibilidade. É uma decisão muito séria e que precisa ser discutida por diversos atores e instituições. Hoje não temos informações suficientes para dizer que uma praia deve ser fechada ou proibida para banho”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, a intenção é que os estudos e os dados produzidos pelo monitoramento ajudem a construir protocolos técnicos que permitam identificar, no futuro, situações em que medidas restritivas possam ser necessárias.

De acordo com Danise, os dados também poderão subsidiar uma reavaliação dos decretos atualmente em vigor, permitindo verificar se as áreas de restrição existentes continuam adequadas ou se há necessidade de ampliação, redução ou ajustes nas delimitações.

Até lá, as autoridades reforçam que a principal estratégia continua sendo a prevenção, por meio da educação ambiental, da sinalização das áreas de risco e da conscientização dos frequentadores das praias.

“Não adianta apenas proibir ou interditar áreas se as pessoas não compreenderem os riscos. A educação ambiental continua sendo a principal ferramenta de prevenção”, destacou Danise Alves.

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