Após seis meses, Estado agenda consulta para artesã que denuncia envenenamento no Recife
Atendimento com neurocirurgião pelo SUS pode gerar laudo aguardado pela Polícia Civil para conclusão do inquérito. Defesa da investigada afirma que cliente não se lembra do ocorrido
Publicado: 13/07/2026 às 17:10
Artesã precisa de muletas e ajuda para se locomover (Foto: Divulgação)
Seis meses após entrar na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) e um dia depois da repercussão do caso, a artesã Denny Cardoso, de 43 anos, conseguiu o agendamento da consulta com um neurocirurgião da rede estadual. Ela denuncia ter sido envenenada com mercúrio por uma aluna durante um projeto social no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no Recife.
O atendimento é considerado fundamental para avaliar sequelas neurológicas que ela atribui à intoxicação por mercúrio e pode resultar no laudo médico aguardado pela Polícia Civil para a conclusão do inquérito que investiga a denúncia.
Segundo o advogado da artesã, Wilberg Reis, a paciente havia sido incluída na fila de regulação em janeiro deste ano, mas permanecia sem previsão de atendimento, mesmo com indicação médica de prioridade.
Denny foi informada do agendamento às 11h42 desta segunda-feira (13). A defesa avalia que a consulta deve avançar a investigação criminal e o tratamento da paciente.
“Ela está sentindo um pouco de esperança agora e pode ser que o caso ande, já que ela depende do Estado. Ela prestou serviço ao Estado por 13 anos, fez trabalho social e isso se deu dentro de um hospital público. Só com a consulta com o neurocirurgião é que virão os encaminhamentos para um laudo que vai possibilitar ao delegado concluir a investigação”, afirmou.
O advogado acrescentou que a cliente continua sofrendo com as sequelas da intoxicação. “Hoje ela está sofrendo muito, com dores, com dificuldade de locomoção por conta da presença do mercúrio no corpo. E, por outro lado, sem ter nenhuma assistência do Estado.”
A demora no atendimento motivou uma ação judicial contra o Estado de Pernambuco. Na petição inicial, a Defensoria Pública argumentou que Denny apresentava sintomas neurológicos progressivos, tinha solicitação autorizada no sistema de regulação desde 13 de janeiro deste ano e permanecia sem previsão de consulta, apesar da classificação de prioridade.
O documento também destaca que exames detectaram a presença de mercúrio no sangue e na urina da paciente, frisando a necessidade de acompanhamento especializado.
Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE) informou que a "paciente já possui consulta agendada com especialista na Rede Estadual de Saúde" e que "já foi informada sobre a data, o horário e o local da consulta."
Caso é investigado há mais de um ano
A denúncia foi registrada em junho de 2025 e Denny afirma que passou meses ingerindo água contaminada enquanto atuava em um projeto social no hospital.
A principal suspeita é uma participante da iniciativa. Imagens gravadas pela própria vítima mostram a mulher colocando uma substância dentro da garrafa de água da artesã em duas ocasiões.
Após notar a presença de bolinhas na água e desconfiar do comportamento da suspeita, Denny passou a deixar o celular gravando sempre que se ausentava da sala. Na segunda gravação, acionou a Polícia Militar, e as duas foram levadas para a Delegacia da Boa Vista.
Segundo o boletim de ocorrência, a suspeita negou ter colocado veneno na bebida. O documento também registra que policiais encontraram resíduos de um pó no fundo da bolsa da mulher e que ela tentou retirar o material das mãos dos agentes.
O caso segue sendo investigado pela Delegacia da Boa Vista. De acordo com a vítima e sua defesa, todos os laudos periciais já foram concluídos, mas o inquérito ainda não foi finalizado.
Um dos exames toxicológicos confirmou a presença de mercúrio nas amostras de sangue e urina de Denny Cardoso. O laudo pericial aponta que o metal foi detectado nos dois materiais biológicos analisados e destaca que a substância pode causar danos neurológicos, renais, imunológicos e musculares, entre outros efeitos.
Defesa diz que suspeita não se recorda do ocorrido
A advogada da investigada, Ana Maristela, afirmou que sua cliente enfrenta problemas de saúde mental e nega lembrar do que aconteceu no dia dos fatos. “Ela tem três tipos de doenças mentais, está com três Classificações Internacionais de Doenças (CIDs). O fato aconteceu, só que não se pode provar de quem era aquela garrafa.”
Segundo a defensora, a cliente foi avaliada recentemente por um psiquiatra. “O psiquiatra acabou de conversar com ela, neste instante, e ela diz que não se recorda de nada daquele dia. Inclusive foi para a delegacia com a filha e não se recorda. Além disso, ela diz que não tem desavença nenhuma com a suposta vítima.”
Em nota, a defesa acrescentou que “as investigações estão em andamento e que qualquer divulgação de vídeos, fotos ou nomes dos envolvidos podem prejudicar as investigações, portanto não foram autorizadas”. A advogada também afirmou que “a vítima está tendo todo apoio dos órgãos competentes”.