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Direitos da Família

"Depois de 36 anos, estamos casados", celebra noiva em casamento comunitário no Recife

Ação da Defensoria Pública oficializou a união de 217 casais gratuitamente no bairro do Cordeiro

Guto Moraes

Publicado: 28/08/2026 às 19:58

Moradores do bairro da Estância, Brivaldo e Maria Marta oficializaram a união após 36 anos de relacionamento/Weslly Gomes/DP foto

Moradores do bairro da Estância, Brivaldo e Maria Marta oficializaram a união após 36 anos de relacionamento (Weslly Gomes/DP foto)

O casal Marta da Silva e Brivaldo Pereira tem 54 anos cada, dos quais 36 foram dedicados à vida a dois. Neste tempo, a família cresceu. Eles tiveram dois filhos e, hoje, são avós de quatro netos. Somente nesta sexta-feira (28), oficializaram a união, durante uma ação da Defensoria Pública de Pernambuco, que celebrou gratuitamente o casamento de 217 casais, no bairro do Cordeiro, no Recife.

"A gente tinha programado, mas não aconteceu. Então decidimos esperar mais um pouco", relembra Brivaldo. Uma espera que em nada ofuscou a alegria de Marta. A cerimônia era prevista para as 15h, mas desde as 10h30 ela já estava com a maquiagem pronta, feita pelo sobrinho. "Para mim, foi radiante. Eu já não esperava. Depois de 36 anos, nós estamos casados. É uma data que vai ficar para sempre", celebrou a noiva.

Outro casal, Lucas Marques e Manuela Santos, 24, namoraram por sete anos antes de decidirem morar juntos e visualizaram no casamento comunitário uma oportunidade de cortar custos. Ao falar ao Diario, Manuela não conteve a emoção. "Tantas pessoas aqui que têm uma história tão grande, estão há tanto tempo juntos. Isso é uma oportunidade para nós e para eles", disse. "A gente não achava que teria uma festa tão grande, mas conseguiu se organizar para participar e ter um casamento."

De acordo com a Defensoria Pública, 217 dos 240 casais previstos conseguiram oficializar a união; os demais não conseguiram, em virtude de pendências documentais. Para a ação de cidadania, equipes de 12 cartórios do Recife foram deslocadas para o Compaz Ariano Suassuna, onde 70 funcionários do órgão auxiliaram em toda a organização logística, da condução dos casais aos respectivos cartórios até a localização de documentos.

"É um trabalho construído a muitas mãos. São milhares de pessoas trabalhando também para que essa documentação possa chegar a tempo. Os cartórios são mobilizados na busca de certidões de nascimento, que muitas vezes precisam ser atualizadas, em estados diferentes", aponta a defensora pública Isabella Luna, que coordenou esta edição da ação.

Para a defensora, a celebração do casamento comunitário é um ato de cidadania e acesso à justiça, mas também de garantir a segurança jurídica dos casais. "São pessoas que às vezes estão vivendo maritalmente há muito anos e não tinham o estado civil consolidado. Isso gera efeitos na vida civil, em direitos da personalidade, direitos de família e até previdenciários. Uma vez que elas tenham o estado regulamentado, estão asseguradas", justifica.

Com a participação no casamento comunitário, a economia estimada é de pelo menos R$ 500, desde o custo da celebração até a mobilização dos documentos necessários, estima Isabella Luna. Nesta edição, os casais contaram com a ornamentação, bolo, orquestra e profissionais de foto e vídeo que realizaram toda a cobertura. Os registros podem ser resgatados por reconhecimento facial, em um link que a organização disponibilizará.

 

O casal formado por Laís e RIlda celebrou a união ao lado das mães - Weslly Gomes/DP foto
O casal formado por Laís e RIlda celebrou a união ao lado das mães (crédito: Weslly Gomes/DP foto)

Diversidade

A editora de vídeos Laís Rilda, 34, e a psicóloga Vanessa França, 36, estiveram entre os casais homoafetivos que celebraram a união estável na ação comunitária. Ao lado das mães, elas reconhecem que não é fácil se assumir e estar celebrando o amor em um espaço público com mais de 500 pessoas.

"Muita gente tem dificuldade, inclusive da aceitação dentro de casa. Então, a gente reconhece que está vivendo um certo privilégio de estar aqui hoje, com as nossas mães, em um casamento que foi organizado por uma instituição pública. Isso é muito representativo", afirma Laís.

Para Vanessa, as duas passaram a ser um exemplo entre outros amigos LGBTQIAPN+. "Pra muita gente que ainda tá com muito medo de assumir a vida a duas, a gente tá aí casando. É muito importante compor essa representatividade", observou a psicóloga, que lamentou a baixa adesão de casais homoafetivos. Da lista original, de 240 casais, ela conta ter reconhecido somente seis.

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