Refilmagem brasileira de 'O Quarto do Pânico' explora trauma, insegurança e violência de gênero
'Quarto do Pânico', versão brasileira do filme homônimo de David Fincher, lançado em 2002, chega nesta sexta-feira (13) ao Telecine
Publicado: 13/02/2026 às 11:50
Ísis Valverde faz papel que, no original, era de Jodie Foster (Divulgação)
Após um trauma brutal, mãe (Ísis Valverde) e filha (Marianna Santos) se mudam para uma casa gigantesca, equipada com um sofisticado sistema de segurança. No meio da noite, três bandidos invadem o imóvel, forçando as duas a se esconderem em um quarto com paredes de aço e acesso a todas as câmeras. Tudo se transforma em um grande impasse quando fica claro que o que os homens querem está justamente nesse lugar onde elas estão refugiadas.
Esse é o mote de "O Quarto do Pânico", lançado em 2002, com direção de David Fincher (de "Seven: Os Sete Crimes Capitais", "Clube da Luta" e "Garota Exemplar") e roteiro de David Koepp, agora refilmado neste "Quarto do Pânico", dirigido por Gabriela Amaral Almeida, com adaptação assinada por Fábio Mendes. O filme entra nesta sexta-feira (13) diretamente no catálogo do Telecine.
Estruturalmente, quase nada é alterado nesta nova versão, mas a diretora, conhecida por filmes de terror como "O Animal Cordial" e "A Sombra do Pai", acrescenta uma camada emocional extra e demonstra uma preocupação genuína em conferir autenticidade aos diversos medos que passam pela cabeça da protagonista numa situação extrema como essa.
Não passa despercebido em nenhum momento, para Gabriela Amaral (é, na verdade, o ponto de interesse maior dela), que "Quarto do Pânico" lida com a violência de gênero estabelecida já na premissa: três homens contra uma mulher e sua filha. Se este fator já era bem delineado pela imponência da atuação de Jodie Foster no longa norte-americano, aqui ele é reforçado a cada momento, tanto pelo desespero no olhar de Ísis Valverde quanto pela câmera mais imprevisível e volátil da cineasta.
O principal obstáculo desta adaptação é o quão restrita ela parece pela própria proposta. O que o roteiro do original tinha de tradicional, enquanto um exercício de suspense de invasão domiciliar, este parece desnecessariamente amarrado ao texto-base. Para quem já viu o filme de Fincher, a versão brasileira acaba soando quase inofensiva, justamente por manter batidas que já eram previsíveis lá em 2002.
A arquitetura da casa acaba sendo o elemento mais particular desse "Quarto do Pânico", que substitui, apropriadamente, as linhas retas rígidas do anterior por movimentos circulares que unificam os espaços de maneira ao mesmo tempo ampla e labiríntica. Do ponto de vista de produção, a César o que é de César: ele não apenas é filmado e fotografado com esmero técnico, mas também não fica aquém da primeira versão (cujo orçamento, à época, foi estimado em 48 milhões de dólares).
O elenco, completado por André Ramiro, Marco Pigossi e Caco Ciocler, tem presença, mas os personagens parecem presos demais aos códigos do gênero — o bandido "de boa índole" e com motivação nobre, o descontrolado que assume a liderança e o bruto misterioso de poucas palavras, com direito a cicatriz macabra.
São, enfim, amarras às quais "Quarto do Pânico" se prende sozinho, ainda que tenha no seu comando uma diretora capaz de fazer até da mais engessada narrativa um sólido exercício de tensão.