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‘Clube da Luta’ retorna às livrarias após 30 anos do lançamento e lembra por que é um fenômeno

Livro 'Clube da Luta' é relançado em todo o Brasil; em entrevista ao Diario, pesquisador reflete sobre o seu impacto na cultura pop e suas principais controvérsias

André Guerra

Publicado: 23/03/2026 às 05:00

Obra controversa está de volta às livrarias a partir desta segunda-feira (23) /Divulgação

Obra controversa está de volta às livrarias a partir desta segunda-feira (23) (Divulgação)

Há 30 anos, uma geração de leitores foi impactada por uma das mais conhecidas e influentes sátiras da virada do milênio. Primeira publicação do escritor norte-americano Chuck Palahniuk, “Clube da Luta” retorna nesta segunda-feira às livrarias de todo o Brasil, relançada pela editora Record (R$ 184), mas a sensação que parece compartilhada entre leitores é a de que, na verdade, nunca foi embora.

Na trama, um homem comum, exausto com sua vida e seu trabalho, tem sua rotina completamente transformada ao conhecer Tyler Durden, um vendedor de sabonetes tão misterioso quanto extrovertido. Os dois fundam o clube da luta do título, um lugar para extravasar suas raivas reprimidas e cuja primeira regra é não falar sobre ele, o que, claro, acaba não se cumprindo. A entrada de uma personagem feminina, Marla Singer, no entanto, torna-se uma virada de chave que leva a história para uma direção diferente, culminando em um dos terceiros atos mais emblemáticos da ficção estadunidense desde então.

A versão para o cinema, lançada em 1999 e dirigida por David Fincher — que se consagraria anos depois com adaptações de outras obras icônicas, como “A Rede Social”, “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” e “Garota Exemplar” — e protagonizada por Edward Norton, Brad Pitt e Helena Bonham Carter, teve uma resposta polarizada da crítica e fraca em termos de bilheteria, mas não demorou a se revelar também um fenômeno. Hoje, com amplo alcance na cultura pop, tanto o livro quanto o filme de “Clube da Luta” possuem uma base de fãs que chegou a fugir do controle temático de seus criadores.

“Parece-me que esse impacto é fruto de uma saturação, pensando especificamente naquele final dos anos de 1990. Era uma época em que promessas e utopias já tinham perdido o brilho, mas ainda continuavam sendo repetidas. Então vem esse livro e extrapola tudo, como uma espécie de curto-circuito, um colapso”, explica, em entrevista ao Diario, o escritor pernambucano Sidney Rocha.

O especialista comenta ainda o impacto da obra na construção do discurso e da iconografia incel (abreviação de "involuntary celibate" ou celibatário involuntário), denominação para comunidades masculinas marcadas pelo ressentimento em relação às mulheres. “O que, no livro e no filme, parece crítica à alienação, à masculinidade dominada pelo consumo e pelo vazio existencial pode trazer, em uma leitura atual, esse tipo de visão”, diz Sidney. “Para tudo cabem novas interpretações. Não somente a mensagem, red pill ou não, mas acho que as narrativas estão em crise. E talvez a crítica mais interessante hoje seja aquela que não transforme a leitura em tribunal, tampouco em cegueira”, avalia.

Jornalista e ensaísta, Palahniuk escreveu outras obras notáveis após este sucesso, como “Sobrevivente”, “Monstros Invisíveis” e “Condenada”, mas nenhuma com o nível de repercussão mundial. Retrato nítido de um cenário urbano em decadência, “Clube da Luta” segue atual em suas inferências acerca do mundo — talvez mais ainda hoje, na cultura desenfreada das redes e na sensação de destruição iminente com guerras, mesmo três décadas depois.

Palahniuk instrumentaliza seu conhecimento do universo jornalístico para satirizar uma realidade que já se apresenta com um aspecto de crônica, em todo o seu caos e chauvinismo. O autor aproveita sua experiência no jornalismo para se aproximar da crônica e, por meio da ficção, lança seu olhar ácido sobre uma sociedade que, em muitos aspectos, não parece ter melhorado desde então.

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