Vida e obra libertadora de Tereza Costa Rêgo ganham nova exposição na Caixa Cultural Recife
Falecida em 2020, Tereza Costa Rêgo tem obra emancipadora celebrada na exposição "Sem Concessões", que abre hoje na Caixa Cultural Recife e, posteriormente, segue para Salvador e São Paulo
Publicado: 24/03/2026 às 06:00
Pintora Tereza Costa Rêgo (Foto: Alexandre Severo)
Talento e variedade nunca faltaram às artes plásticas de Pernambuco. O que faltou foi dar visibilidade às mulheres que ajudaram a construir essa história. A artista visual recifense Tereza Costa Rêgo, falecida em 2020, é uma dessas figuras que conquistaram seu lugar e abriram caminho para tantas outras, sobretudo por meio da litografia.
Ainda assim, seu olhar feminino reverbera aquém do que deveria. É para lembrar, reparar e celebrar sua história que a exposição "Sem Concessões" terá abertura nesta terça-feira (24), a partir das 19h, na Caixa Cultural Recife, onde segue em cartaz até o diae 21 de junho, com entrada gratuita.
Para Tereza, a litografia representou uma espécie de exorcismo de seu passado. Na infância, viveu confinada em casa, sem liberdade para sair. Já na vida adulta, assumiu o papel de mulher da sociedade, cercada por um rígido controle. A pintura, porém, já estava presente desde a adolescência, quando ingressou na Escola Nacional de Belas Artes do Recife e conquistou prêmios.
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Após o casamento com o juíz José Gondim Filho, a produção artística era ocasional, como era comum às mulheres da elite na época. Tudo mudou quando se separou do marido para ficar com o perseguido político Diógenes Arruda, causando um grande escândalo.
Com o agravamento da ditadura, o casal passou a viver em fuga e clandestinidade. Anistiados, retornaram ao Brasil, mas Diógenes faleceu logo após o retorno, em 1979. Nesse período, Tereza integrou a Oficina Guaianases, espaço de difusão da litografia frequentado por João Câmara, Gilvan Samico e Gil Vicente.
A exposição traz 34 obras em um recorte que sintetiza essa trajetória. “Ao retornar de viagem e se estabelecer em Olinda, Tereza se liberta e então realiza a obra tal qual a conhecemos”, afirma Denise Mattar, curadora que também esteve à frente de outra exposição da artista, realizada em 2022, na Galeria Marco Zero.
"Pecado Original" e "A Emparedada da Rua Nova" estão entre os quadros que evidenciam o aprisionamento na trajetória de Tereza. A mostra também inclui obras sem título, como a de uma mulher atrás de uma janela de grade vermelha, olhar sensual, brincos e um gato sobre os ombros.
“Há um conjunto significativo de obras em que se percebe essa solidão e essa sensação de encarceramento”, observa Denise. Já "Apocalipse de Tereza", que abre a exposição, se destaca especialmente pela expografia de Rinaldo Carvalho, que integrou a obra à arquitetura da Caixa Cultural Recife.
A partir daí, o percurso se desdobra em quatro núcleos: o período da Oficina Guaianases; "O Fruto Proibido", que aborda a tentação vivida pela mulher aprisionada até o momento simbólico de morder a maçã; "O Despertar do Corpo", com obras que celebram a libertação; e, por fim, um segmento dedicado a Olinda, cidade onde a artista viveu até falecer, aos 92 anos, em sua residência e ateliê na Rua do Amparo. “Ela sempre dizia que era apaixonada pelo Homem da Meia-Noite”, relata a curadora.
Além de oferecer ao público pernambucano a oportunidade de conhecer mais a fundo o trabalho de uma das mais profícuas artistas do estado, a exposição também levará Tereza Costa Rêgo a outros públicos, com itinerância prevista para a Caixa Cultural de Salvador e à Caixa Cultural de São Paulo. “Tereza precisa ser mais conhecida em Pernambuco, mas sua obra tem fôlego para alcançar o Brasil e o mundo”, reforça Denise.