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Diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. apresenta sessão de filme vencedor do BAFTA no Recife

Akinola Davies Jr., premiado no Festival de Cannes e no BAFTA, chega ao Recife para sessão especial de 'A Sombra do Meu Pai', no Cinema São Luiz, neste sábado (18), e revela ao Diario seu fascínio pelo cinema brasileiro

André Guerra

Publicado: 17/04/2026 às 19:31

"O cinema brasileiro é rico e longevo. Reflete bem seu povo e sua cultura", destaca ao Diario o cineasta de 'A Sombra do Meu Pai' (Foto: Rafael Vieira/DP)

É com um olhar de fascínio e surpreendente reconhecimento que o cineasta britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. chega ao Recife para apresentar “A Sombra do Meu Pai”, seu longa-metragem de estreia. Apesar da distância continental, as conexões entre a realidade do seu país de ascendência e a cultura pernambucana se apresentam em múltiplas formas: da música à comida e, claro, ao audiovisual.

O filme terá uma sessão especial no Cinema São Luiz, neste sábado (18), às 18h, como parte da programação da 3ª edição do Encontro Nacional da Rede Paradiso de Talentos, evento sediado este ano na capital pernambucana, e entra em cartaz a partir do dia 30 de abril.

Primeiro filme nigeriano a aparecer na seleção oficial do Festival de Cannes, onde recebeu, em 2025, o prêmio de Menção Especial da Caméra d'Or, “A Sombra do Meu Pai” é uma semiautobiografia que explora os limites entre memória e ficcionalização. Em 1993, dois meninos, Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo) e Akinola (Godwin Egbo), saem da zona rural e seguem com seu pai, Folarin (Sope Dirisu), até Lagos, capital da Nigéria, onde ele tenta receber um salário que lhe é devido. A jornada revela uma tocante tentativa de reconexão entre pai distante e seus filhos, permeada, no entanto, por um tenso clima político que culmina em conflitos acarretados pela anulação das eleições em um golpe de estado.

“É uma honra ver que uma história tão pessoal e que me acompanha por tantos anos está tocando pessoas de lugares tão diferentes do mundo, na Europa, na Coreia, na Austrália e, principalmente, na Nigéria. Temos um cinema muito forte, a ‘Nollywood’, e, apesar de ‘A Sombra do Meu Pai’ seguir um caminho mais artístico, expressa muitas das nossas tradições cinematográficas”, ressalta Akinola em entrevista ao Diario.

Ele acrescenta, enaltecendo o privilégio de vir ao Brasil: "É um país que produz um cinema rico e longevo, que reflete tão bem seu povo e sua cultura. Quanto mais específico, mais universal, e, nos últimos anos, vocês têm conseguido um espaço incrível no cenário internacional. Trabalho para que, fazendo o nosso também, com essa autenticidade para com nossas raízes e histórias, possamos conquistar esse mesmo patamar”.

Durante o bate-papo, o realizador, que venceu o BAFTA deste ano na categoria de Melhor Estreia de um Diretor/Roteirista Britânico, destaca as similaridades entre “A Sombra do Meu Pai” e “O Agente Secreto”, discutidas com o próprio Kleber Mendonça Filho em Cannes. “Os dois filmes são reconstruções minuciosas de uma época, falam de paternidade e de como retratar a memória. Tanto a Nigéria quanto o Brasil passaram por governos autoritários e pessoas sacrificaram suas vidas por um país melhor”, afirma Akinola. “Esse é um dos maiores poderes do cinema. Com a nossa arte, podemos cruzar fronteiras da distância ou da língua e nos aproximar de maneiras totalmente imprevistas. E se você não mostrar sua cultura, alguém fará isso por você, ditando ou se apropriando”.

Ao contrário do longa filmado no Recife, porém, “A Sombra do Meu Pai” condensa uma série de situações políticas relevantes na história da Nigéria, em particular o massacre ocorrido na instalação militar Bonny Camp, que matou diversos civis que protestavam contra a anulação das eleições. Alguns acontecimentos históricos mencionados, no entanto, ocorreram em momentos distintos, mas são trabalhados pelo roteiro através de símbolos, buscando um diálogo com novas gerações.

“Hoje a situação do nosso país é muito mais estável, mas é tudo sempre precário e incerto. Foi algo que aprendi nesses últimos anos, com o mundo e com todo o processo deste filme: o fato de que basta uma mudança para tudo ficar difícil de novo”, pontua o cineasta, revelando que seu irmão ainda mora na Nigéria e todos os anos ele visita sua terra ao menos duas vezes. “Não somos tão gigantes territorialmente quanto o Brasil, mas ainda somos um país grande. É complicado demais fazer as pessoas enxergarem que tem muito mais em comum do que diferenças”.

Na mescla de ternura e brutalidade emocional de “A Sombra do Meu Pai”, Akinola Davies Jr. escreve, com a câmera, outro capítulo na construção de pontes sobre oceanos, fazendo o cinema nigeriano soar, por um momento, um tão brasileiro quanto a mais pernambucana das canções.

A estreia faz parte do Ano Cultural Brasil/Reino Unido, temporada realizada pelo British Council, em parceria com o Instituto Guimarães Rosa (IGR), e conta com o apoio do Governo do Reino Unido e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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