° / °
Viver
MÚSICA

Chico César resgata músicas inéditas do início da carreira em novo disco, com show no Recife neste sábado

Chico César estreia turnê do álbum "Fofo" com show íntimo de voz e violão no Recife. Repertório resgata composições dos 17 aos 20 anos e reencontra plateia que o consagrou em "Aos Vivos", no mesmo Teatro do Parque

Allan Lopes

Publicado: 01/05/2026 às 06:00

Chico César/Sil Ribas/Divulgação

Chico César (Sil Ribas/Divulgação)

Em uma longínqua noite de 1982, um paraibano de 18 anos apresentou as suas primeiras canções na discreta sala Hermínio Bello de Carvalho, na Casa da Cultura de Pernambuco, no Recife. O nome dele, Chico César, ainda passava despercebido, longe do estrelato que viria com “À Primeira Vista” e “Mama África”. Ouvidas por uma plateia enxuta, aquelas músicas iniciais nunca mais voltaram ao palco — até agora.

Esse repertório ganha, enfim, a grandiosidade que merece no Teatro do Parque, neste sábado, às 20h. O show marca a estreia da turnê do álbum “Fofo”, que já está disponível no Youtube, e convida o público a um mergulho profundo na juventude do artista, com ingressos entre R$ 110 (meia) e R$ 220 (inteira) na plataforma Sympla.

Entre os poucos presentes que testemunharam o início de tudo, há 44 anos, havia um espectador atento. 'Foi ali que Lenine me viu tocar pela primeira vez', relembra o artista, hoje com 62 anos, em entrevista ao Diario. Na época, o pernambucano estava prestes a lançar seu disco de estreia, “Baque Solto” (1983), em parceria com Lula Queiroga.

Aquela apresentação ajudaria a estreitar os laços entre os dois, culminando, anos mais tarde, na parceria em “Aos Vivos” (1995) — o álbum que apresentou Chico César ao Brasil. Curiosamente, o batismo desse disco inaugural no Recife também ocorreu no Teatro do Parque. “Foi onde me senti artista pela primeira vez”, celebra.

Toda essa bagagem histórica pesou na decisão de iniciar a turnê de “Fofo” pela capital pernambucana. 'É uma plateia que grita, que ama, que canta e chora', define o cantor. Para este resgate musical, Chico escolheu a falsa simplicidade do formato voz e violão.

A promessa é de um show profundo e pessoal. “Minha essência está toda ali. Diz muito do que sou e do que posso ser”, comenta. Ele seguirá com o novo projeto pelo Brasil e na Argentina antes de reencontrar o público pernambucano no São João de Caruaru, no dia 20 de junho.

Mesmo com inserções recentes, a exemplo de “Ligue o Foda-se”, o cerne do espetáculo é a produção juvenil de Chico César, dos 17 aos 20 anos. “A ideia é ver se há coerência entre o artista tão jovem e o artista de agora”, explica. O repertório revisita a fase em que o paraibano, recém-chegado à capital João Pessoa, foi batizado pelo experimentalismo do coletivo Jaguaribe Carne.

Dedicado a fundir raízes nordestinas a influências indianas e paquistanesas, o grupo moldou a veia poética que o cantor carrega em toda a sua carreira. “Pedro Osmar diz que sou o braço pop do grupo. É uma visão generosa”, diz o artista sobre o fundador do movimento e seu mentor, com quem divide os versos da faixa “9 linhas 22 toques corpo à escolha do diagramador”.

Ao se mudar para São Paulo, em 1985, Chico César sentiu a urgência de reafirmar suas raízes. As suas primeiras composições cederam espaço a um discurso de resistência negra e nordestina, que desencadeou no já citado “Aos Vivos”. “Sou grato a elas por terem esperado. Se eu tivesse gravado essas canções no primeiro disco, isso me delimitaria um espaço, talvez uma carreira mais curta. E as canções não seriam escutadas”, analisa.

“Fofo” é uma espécie de mapa das influências do artista. Enquanto “Saudade Senhora Dona” evoca a tradição nordestina dos aboios e galopes, mergulhando em sonoridades áridas, “Lençóis Maranhenses” revela um lado mais lírico. É uma balada que se derrama em afeto, navegando, como diz a letra, pela “movediça areia do amor nonsense”

O desejo de abraçar novamente o antigo repertório surgiu, ironicamente, enquanto Chico celebrava as três décadas do seu debut. A ideia foi fortalecida após uma conversa com a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, que também vivia o processo de revisitar a sua juventude. “Conversamos sobre a necessidade do artista, às vezes, voltar para as canções que lhe deram origem. Pensei: é bonito isso. Quero fazer”, resume o cantor. “Hoje, com um público maior, espero que essas músicas circulem, que as pessoas as cantem e que elas possam influenciar quem está começando agora na composição ou no violão”, completa.

Mais de Viver

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas