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ARTES PLÁSTICAS

Artista da Muribeca, no Grande Recife, leva exposição para Nova York, mas tem visto negado

Exposição em galeria de Nova York reforça projeção global do artista pernambucano Lu Ferreira, que acumula negativas de visto desde 2024

Allan Lopes

Publicado: 06/05/2026 às 06:00

Ausente na abertura, Lu Ferreira acompanha de longe mais uma exposição nos Estados Unidos/Foto: Marina Torres/Divulgação

Ausente na abertura, Lu Ferreira acompanha de longe mais uma exposição nos Estados Unidos (Foto: Marina Torres/Divulgação)

O pincel tornou-se insuficiente diante do que o artista pernambucano Lu Ferreira buscava em suas pinturas. Ao substituir a ferramenta por materiais nada convencionais, ele ampliou suas rotas criativas e consolidou sua presença no cenário internacional. Prova disso são as 27 obras da exposição “Estranhas Luzes no Bosque”, em exibição na galeria Tara Downs, em Nova York, nos Estados Unidos. O autor, no entanto, não teve o visto aprovado para ver a conquista de perto.

Esta já é a sua terceira exibição no país norte-americano, mas Lu Ferreira não compareceu a nenhuma delas. Em 2024 levou “Mutações e Transmutações” a Los Angeles e, em 2025, expôs pela primeira vez na Tara Downs. Em todas as ocasiões, incluindo agora em 2026, o artista reuniu toda a documentação necessária, mas teve o visto negado. “É frustrante produzir obras e não estar lá. Fico muito angustiado em casa”, lamenta em entrevista ao Diario.

Para Lu, a negativa do visto é a manifestação atual de um racismo dos Estados Unidos ao qual ele acredita estar sujeito — não por ações desta vida, mas por algo que vincula a outras existências, nas quais teria confrontado o país. “Eu acredito que existe a lei dos homens, a lei de Deus e as outras leis”, argumenta.

Longe de ter sido descoberto por acaso, o artista chegou ao reconhecimento mundial por meio de uma sequência de eventos: primeiro, o interesse de um artista contemporâneo, seguido pela indicação a David Laloum, colecionador francês radicado em São Paulo. Após fazer uma obra por encomenda para ele e participar na prestigiada Residência Domo Damo, na capital paulista, seu trabalho ganhou visibilidade. A partir daí, surgiram convites para individuais em galerias internacionais, a exemplo da M+B em Los Angeles.

Criado no Conjunto Muribeca, em Jaboatão do Guararapes, Lu cresceu sob a influência da doutrina evangélica. Ainda assim, ao voltar para casa, o culto dava lugar ao ritmo do candomblé que aparecia no terreiro vizinho. “Eu fechava a porta do quarto para dançar sem ser visto, mas havia também o medo desse outro tipo de fé que, de certa forma, foi apagada por outras religiões”, relembra.

Autodidata, deixou a escola e conduziu sozinho sua formação, voltando-se a temas como o sincretismo religioso barroco. Entre suas referências está o livro homônimo de Stela Carr, que dá título à nova exposição e dialoga com sua produção.

“Sou artista desde o útero da minha mãe, onde fazíamos das tripas um coração”, diz Lu. Apesar da clareza sobre seu propósito, a ausência de oportunidades no mercado da arte o manteve no anonimato por muito tempo. Foram duas décadas produzindo para si mesmo, sem exposições ou olhares externos.

Nesse período, o pernambucano se incomodou com a assertividade do pincel e passou a utilizar outras ferramentas, que prefere não revelar. “Eu buscava o erro no meu trabalho, porque é dele que vem o aprendizado e a possibilidade de extrair algo mais potente”, destaca

Na gênese de sua criação, Lu também encontrou suas primeiras referências visuais na observação do entorno. O lodo das paredes e o rastro dos esgotos a céu aberto o ensinaram a transformar o cenário periférico em um rico laboratório de experimentação visual. “A história da arte não se resume ao óleo sobre tela”, afirma.

Ao abdicar do pincel e do suporte clássico, ele mergulha em uma pesquisa onde a estética do 'eu' assume um caráter literal e visceral. “É a história da minha arte que está sendo colocada em processo”, completa.

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