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SUPERAÇÃO

Como o circo salvou Índia Morena que, aos 82 anos, estrela filme sobre a vida no picadeiro

Patrimônio Vivo de Pernambuco e o principal destaque do documentário ‘Mambembe’, que ganha sessão especial no Cinema São Luiz neste sábado (9), Índia Morena compartilha sua história com o Diario

André Guerra

Publicado: 09/05/2026 às 06:00

"Foi um filme emocionante para mim e para o mundo do circo", conta Índia (Foto: Marina Torres/DP)

O amor pelas artes circenses salvou a vida de Índia Morena ao longo de toda a sua trajetória — e segue sendo a matriz de onde tira sua força. Aos 82 anos, ela segue cheia de energia e trabalhando como apresentadora de diversos espetáculos no picadeiro, além de dar palestras a convite de escolas. Com essa vitalidade, ela virou também uma estrela de cinema através do documentário “Mambembe”, dirigido pelo goiano Fábio Meira (de “As Duas Irenes” e “Tia Virgínia”), que terá sessão especial no Cinema São Luiz neste sábado (9), às 16h, com a presença do diretor e da própria Primeira Dama do Circo Pernambucano, como é conhecida. O filme entra em cartaz nos cinemas de todo o Brasil a partir da próxima quinta-feira (14).

“Quando Fábio me chamou para o filme, aceitei na hora. Não teve papel escrito ou qualquer coisa combinada. Ele me deixou totalmente à vontade”, conta Índia, reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco pelo Governo do Estado em 2006. Nascida Margarida Pereira de Alcântara, ela é o principal destaque do documentário, que se dedica a celebrar o circo itinerante brasileiro, sendo a artista circense potiguar Madona Show outra personagem emblemática da narrativa.

“Foi um filme emocionante para mim e para o mundo do circo, porque mostra as coisas de modo real. Não é preciso inventar nada para que a história ganhe vida”, completa Índia em entrevista ao Diario. Entre os poucos elementos de ficção ajustados ao registro estão a presença do ator brasiliense Murilo Grossi e da assistente de direção carioca Dandara Ohana, que interpreta Jéssica.

Cantora, trapezista voadora, contorcionista, acrobata e atriz circense, a pernambucana teve uma história marcada por tragédias. Ainda criança — irmã mais velha de cinco irmãos, um deles ainda por nascer —, ela perdeu o pai aos 8 anos. Foi nessa época que, nas suas próprias palavras, se tornou “mãe de sua própria mãe”, já que, desde cedo, seguiu estudando e colocou em prática suas habilidades de pesca aprendidas com o pai.

O que ela amava mesmo, porém, era cantar, desde folhetos de cordel até canções aprendidas com os idosos. E esse foi apenas o começo de uma jornada circense na qual descobriria vários de seus outros talentos. “Cantava à luz da lua para o pessoal da Vila de São Miguel, que me dava um dinheiro. E eu usava tudo para ajudar em casa. Nessa época, ainda pescava muito. Meu pai tinha me ensinado tudo o que precisava quando era pequena, e todo o meu aprendizado eu usava para não ver minha mãe sofrer”, lembra, emocionada.

Foi graças ao seu crescimento profissional e à força de vontade para instrumentalizar seu talento — em um caminho que, agora, ganha as telas do cinema de maneira tão inspiradora quanto cheia de sentimento — que Índia Morena não deixou que ninguém de sua família passasse necessidade novamente. Em paralelo e ao som das marchas acrobáticas, revelou para o Brasil o coração da identidade do circo pernambucano.

 

O CIRCO E A TRANSFORMAÇÃO

Mal Índia Morena poderia esperar e, um dia, apareceu na Vila São Miguel um carro de circo anunciando um concurso no qual a menina que cantasse melhor ganharia um par de sapatos e um corte de tecido. A experiência foi transformadora: com apenas algumas palavras, a criança de 9 anos, já vocacionada, conseguiu conquistar uma plateia raivosa que gritou xingamentos contra ela. “Me chamaram de marisqueira, de catadora pobre de mariscos, todo tipo de coisa. Mas, quando o locutor me deixou falar e eu disse que eu era, sim, catadora de mariscos, era para que meus irmãos não fossem à casa deles pedir nem uma colher de açúcar”, recordou.

Foi cantando o clássico “Coração Materno”, de Vicente Celestino, que Índia não só ganhou o concurso como emocionou um público tão árido há mais de 70 anos. E, mesmo premiada e convidada para seguir viagem com a trupe, ela preferiu ficar em casa com a família, transformando o tecido que ganhou em um vestido para ela e suas irmãs. Foi apenas no ano seguinte, porém, que outro circo familiar apareceu na cidade e, assistindo a uma contação de histórias de uma participante chamada Linda Moreno (que inspirou seu nome artístico), ficou determinada a ser ainda melhor.

“Minha mãe tentou me aconselhar a não ir, porque não queria me perder, mas a minha madrinha do circo insistiu que, se eu não fosse, estaria cortando minha carreira pela raiz. Mesmo contrariada, ela acabou permitindo”, conta. “Eu não aguentava mais tanto arranhão de mangue, corte de ostra e dentada de siri. Eu vou ser artista, minha mãe”, lembra. E, de fato, ela foi.

Ao longo da adolescência, Índia foi aprendendo todo tipo de número no circo e soltou a voz em diversas apresentações pelo estado com diferentes trupes. Casou-se aos 17 anos com Francisco Silva, palhaço de circo e trapezista, com quem viveu 10 anos de um relacionamento conturbado. “Na época, os circos não queriam mulheres sozinhas, apenas acompanhadas por algum homem. Era um excelente artista de circo, mas um péssimo marido. Sofri muito nas mãos dele até perceber que eu tinha o poder de quebrar essa barreira e ser livre no mundo circense”, relata na entrevista.

Índia Morena fez carreira também nos grandes circos que rodaram pelo país e atravessaram fronteiras entre os países da América do Sul. Do American Circus ao Gran Bartholo, ela teve experiência com grandes apresentações em acrobacias que marcaram os eventos circenses nacionais. “Conheci nove países nessa época, mas nem tenho como comprovar tudo isso porque não tenho todos os registros que queria das viagens e apresentações, mas a memória guarda cada um deles muito bem”, reafirma.

Mesmo com as viagens nacionais e internacionais, um dos momentos mais significativos da carreira da artista foi seu retorno para a Vila São Miguel tantos anos depois de embarcar na jornada mambembe. “O mundo dá voltas incríveis. Ninguém jamais dava nada por mim, mas ali estava eu, com o meu próprio circo, deixando até mesmo aqueles que me xingaram entrarem de graça”, narra Índia.

Casada há mais de 50 anos com Maviael Ribeiro, presidente da Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco e convertido ao mundo do circo pela esposa, ela considera a felicidade proporcionada pela sua arte uma das mais importantes na vida de qualquer público que abraça a experiência de um picadeiro, seja ele verdadeiro ou imaginado. “Não há nada mais nobre do que fazer as pessoas alegres. Não entendo quando usam o adjetivo palhaço como algo ruim. Com todas as suas dificuldades, que são muitas, pouca coisa é mais bonita do que a arte da palhaçaria”, vibra.

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