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CRÍTICA

No desolador 'Alpha', da diretora de 'Titane', as partes são melhores do que o todo

Dirigido por Julia Ducournau, que venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2021 por 'Titane', o horror dramático 'Alpha' está em cartaz no Recife no Cinema da Fundação (Sala Derby)

André Guerra

Publicado: 04/06/2026 às 14:32

A jovem Mélissa Boros interpreta protagonista do título, que vive um mundo desolador em que uma doença contagiosa transforma os infectados em mármore/Mubi/O2 Play

A jovem Mélissa Boros interpreta protagonista do título, que vive um mundo desolador em que uma doença contagiosa transforma os infectados em mármore (Mubi/O2 Play)

Vigor e capacidade de chocar não faltam a Julia Ducournau. Vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2021 pelo terror corporal “Titane”, a cineasta francesa gerou uma antecipação natural pelo seu filme seguinte, “Alpha”, que, ao contrário daquele, foi exibido com respostas pouco estelares na competição de Cannes 2025. Apenas agora, mais de um ano depois, o longa chega ao circuito brasileiro, em cartaz no Recife, no Cinema da Fundação (Sala Derby), e, apesar da experiência irregular e não raro incômoda, merece alguma atenção.

Misto de distopia com horror dramático, “Alpha” acompanha a personagem-título, uma menina de 13 anos (vivida por Mélissa Boros). Ao chegar em casa com uma tatuagem improvisada, ela desperta na mãe o pavor de poder ter contraído uma doença transmitida pelo sangue que transforma pessoas em algo como mármore. A chegada do seu tio, Amin (Tahar Rahim), que acaba de ter uma overdose de heroína, torna os dias da família cada vez mais dolorosos.

Em 2016, quando lançou “Grave” — terror sobre uma estudante que descobre impulsos canibais —, Julia Ducournau botou seu nome no mapa e despertou curiosidade pela contundência com que associa o crescimento da mulher à monstruosidade. “Titane” expande a noção de gênero feminino em uma chave complexa de violência e desconexão. Agora, com “Alpha”, a diretora chega ao seu trabalho mais sombrio, ainda que seja também o mais emotivo.

A analogia à AIDS quase chega ao ponto da literalidade, mas o filme concentra seus apelos na sensação apodrecida dos cenários, dos claustrofóbicos ambientes internos e do isolamento provocado pela exclusão social. Ele evita, assim, que esse enunciado metafórico se torne demasiado específico e alcança um efeito razoavelmente universal. Graças às interpretações de Mélissa, de Rahim e, em particular, de Golshifteh Farahani, no papel de mãe de Alpha, os personagens ganham mais substância do que o texto é capaz de fornecer a eles.

Fluidez e ritmo não são o forte de Ducournau e, em “Alpha”, ela demonstra uma força na concepção e realização de momentos de impacto (especialmente as cenas de pesadelo) que não está presente no conjunto da obra, a qual parece sempre travada pelas repetições da montagem e pela encenação pouco inventiva das cenas de diálogo.

O horror é um componente essencial do cinema de Julia Ducournau, mas aqui ele aparece como um retrato visual do sofrimento daqueles personagens. “Alpha” é muito mais um filme pesado e sufocante do que tenso ou assustador. E, para todos os seus muitos altos e baixos, finaliza com a mais poderosa e desoladora sequência de imagens da carreira da diretora até aqui.

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