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OPINIÃO

Príncipe de Puxinanã, Carrero foi o herói da reportagem que ensinou a realidade a ter asas

Raimundo Carrero, mestre do jornalismo e da literatura, também merece um busto na Praça do Diario, a despeito dos riscos de virar uma estátua

Marília Parente

Publicado: 16/06/2026 às 14:00

Raimundo Carrero/Marina Torres/DP Foto

Raimundo Carrero (Marina Torres/DP Foto)

Faltam vinte minutos para o velório de Raimundo Carrero na Academia Pernambucana de Letras e eu, como sua pupila e portanto uma “canalha” em formação, lamentavelmente faltarei à cerimônia. Mais uma conduta absolutamente decepcionante de minha parte, bem sei. E não que eu mereça alguma defesa, mas a essas alturas só posso alegar que entendi que escrever este texto é a única maneira de qual disponho de me despedir de meu mestre.

Absolutamente patético de minha parte redigir um prólogo sobre mim quando Raimundo Carrero acaba de fazer seu regresso triunfante ao Reino de Puxinanã. Mas, em nossas conversas, ele me ensinou que a gente precisa seduzir o leitor– cortando a própria carne com uma peixeira, se necessário.

E sobre minhas vísceras semeadas na caatinga vejo que estão nascendo agora enormes cajueiros. E o cancão de fogo brutal com as garras neles todos está dando de comer a uma fogueira em noite de tempestade. E não é pra ninguém entender nada mesmo não! É assim que é e que vai ser e pronto! E ainda piora, quando a onça vier voando parecendo o cão, pra dar sua derradeira butada na gente. Minha cabeça, o que mal sobrou, vai ser a primeira a embolar na terra, toda cheia de espinhos e achando graça enrolada nas pedras.

Desculpa todo mundo, são coisas de morar num livro armorial. Em 1975, Carrero inventou Bernarda Soledade- A Tigre do Sertão e, junto com Ariano, inventou esse mundaréu de bicho, gente e roubou uma fazenda vazia na literatura brasileira. E distribuiu a terra com a gente que é do Sertão.

Na mesma época, ele era repórter do Diario de Pernambuco, onde trabalhou por quase 40 anos, atuando também como editor. Soube disse quando fui a sua casa para fazer uma entrevista sobre a Perna Cabeluda. Carrero narrou fidedignamente os terríveis crimes da hirsuta criatura quando a ditadura disse que o jornal não podia falar de violência contra a mulher.

Seu compromisso com a verdade não se contentava com a realidade. Certa vez, Carrero me contou que gostava de ficar na janela da antiga sede do jornal, assistindo às brigas, ao árduo trabalho do meretrício local e à algazarra dos mascates. Essa janela acabou virando o tema de sua estreia com a coluna Diario Cultural, que ele, como era de costume, imaginou antes de existir.

Só que Carrero resolveu me contar de seu desejo e eu, como boa jornalista, imediatamente me prestei ao papel de levar a fofoca até a direção do jornal. Voltei à casa dele– um simpático apartamento nas Graças– com Felipe Resk, nosso diretor de jornalismo, com a missão de convidar Carrero a voltar ao Diario com uma coluna semanal.

Parecia que a gente ia pedir o homem em casamento. Será que Carrero toparia mesmo voltar a escrever pra gente? Com que frequência iria se dispor a fazer isso? Aceitaria um espaço semanal no Viver, editoria de cultura a cujo nascimento ele assistiu atentamente?

Só sei que, depois de cruzarmos a soleira da porta, eu e Felipe emudecemos. Nem vimos o sol cair enquanto Carrero passava boas horas cozinhando saborosas histórias da antiga redação. De Guerrinha, seu repórter de polícia analfabeto que apurava melhor do que ninguém, ao dia em que Galeguinho do Coque invadiu o jornal para ameaçá-lo de morte.

Tentei intervir umas duas vezes para que Felipe fizesse o convite. Carrero percebeu que não deixava ninguém falar mais nada e disparou: “Marília, eu sou canalha”. “Que é isso, Carrero…A gente ama te ouvir”, respondi.

Então Felipe fez o convite. Os olhos do homem no mesmo instante viraram duas cacimbas. Ele levou as mãos ao rosto e disse que aquela seria a honra da vida dele. A gente não sabia, mas Carrero já estava em cuidados paliativos em razão do câncer que o acometera.

Carrero amava profundamente o Diario de Pernambuco. Era assinante e toda semana me ligava para compartilhar suas impressões sobre nossas edições. 

Se estou em posição de fazer isso (e cá pra nós, é claro que não estou), gostaria de pedir à Prefeitura do Recife para acrescentar um busto de Raimundo Carrero na Praça do Diario, ao lado de outros dois grandes heróis do jornalismo brasileiro: Antônio Camelo e Aníbal Fernandes.

Da última vez que visitei aquele lugar, não pude deixar de reparar na indiscreta presença de duas calcinhas de renda sobre os bustos deles. É um risco que se corre quando você vira uma estátua no Centro do Recife, é claro. Mas conhecendo meu canalha favorito, sei que ele adoraria a homenagem.


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