Homenageados pelo São João do Recife, Caju e Castanha mantêm a embolada de coco viva há 50 anos
Dupla pernambucana Caju e Castanha comemora reconhecimento no São João do Recife e defende a valorização da cultura popular
Publicado: 20/06/2026 às 06:00
Dupla pernambucana Caju e Castanha são homenageados no São João do Recife 2026 (Foto: Weslly Gomes/DP Foto)
A identidade musical do São João tornou-se ainda mais enraizada na cultura nordestina à medida que Caju e Castanha fortaleceram o coco e o pandeiro ao lado da sanfona, da zabumba e do triângulo nas festividades de junho.
Ao longo de cinco décadas, a dupla ajudou a consagrar o encontro da embolada com as tradições da festa popular, culminando na justíssima nomeação dos emboladores ao posto de homenageados do São João do Recife em 2026.
Composta pelos irmãos José Albertino da Silva, o primeiro Caju, e José Roberto da Silva, o Castanha, a formação original da dupla foi interrompida com a perda do irmão mais velho, vítima de um câncer cerebral em 2001, aos 39 anos.
Hoje com 59 anos, Castanha reforça que a distinção recebida neste São João também pertence ao antigo parceiro. “Essa homenagem se estende ao meu irmão. Por tudo o que atravessamos nesse tempo, nos sentimos muito honrados e muito felizes com essa homenagem”, diz o artista em entrevista ao Diario.
Para dar continuidade ao legado na embolada, o sobrinho da dupla, Ricardo Alves da Silva, assumiu o pandeiro e o nome artístico do saudoso tio, passando a ser conhecido carinhosamente também como Cajuzinho. “São 25 anos desde a partida do Cajuzão e da minha entrada oficial na dupla. Receber essa homenagem é um reconhecimento à trajetória que construímos levando o nome de Pernambuco para todo o Brasil e também para o mundo”, diz o atual Caju.
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ORIGEM
As calçadas da capital pernambucana foram o primeiro palco de Caju e Castanha a partir do começo dos anos 1970. Ainda crianças, os dois interpretavam sucessos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro para turistas no Mercado de São José, na Casa da Cultura e em praças públicas.
Daquele período, Castanha lembra a falta de reconhecimento e a desvalorização sofrida pela embolada. “Muitas vezes as pessoas jogavam uma moeda como se fosse esmola. Mas a gente levava tudo para ajudar a nossa mãe”, conta.
Com o disco “Solidão de um Caminhoneiro”, gravado em 1992, pavimentou-se a modernização do ritmo. A introdução de mais instrumentos nos arranjos tradicionais deixou a embolada mais palatável para as rádios e aos diferentes perfis de ouvintes.
“Foi assim que a embolada começou a entrar nos palcos de São João, nas vaquejadas e em espaços onde antes não tinha abertura. Esse trabalho ajudou a quebrar muitas barreiras”, ressalta Caju. Apesar das mudanças, não houve o abandono das origens. “A gente mantém a embolada tradicional, apenas no pandeiro, mas também faz com banda completa. O público gosta das duas formas”, completa Castanha.
Diante dessa trajetória marcada pela inovação, a dupla defende que novos estilos também têm o direito de buscar seu espaço e dialogar com o público no circuito junino. “Eu acho bom. Dominguinhos já dizia que era sinal de evolução. O importante é que as novas gerações continuem gravando nossas músicas e mantendo viva essa tradição”, diz Castanha.
Na sequência, Cajuzinho endossa o parceiro, mas faz um adendo: “O que não podemos deixar morrer é o forró autêntico. As novidades ajudam a enriquecer a festa, mas a tradição precisa continuar presente”, afirma.
Admirados por artistas de diferentes vertentes e reconhecidos internacionalmente, com 11 indicações ao Grammy Latino e uma vitória na bagagem, Caju e Castanha continuam quebrando barreiras. A dupla segue unindo forças com grandes nomes da música brasileira, como Marcelo D2, Lenine, Alexandre Pires, entre outros. “É uma honra saber que muitos nomes do rap nos têm como referência”, celebra Castanha.
Daqui em diante, cada novo pandeiro que ecoar a embolada carregará, de alguma forma, um pouco das portas abertas pela dupla. “Os mais velhos já conhecem nossa história, mas agora os filhos e os netos também estão conhecendo. Isso mostra que ainda temos muita estrada pela frente”, conclui Cajuzinho.