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Cem anos de Moacir Santos, o jazzista do Pajeú pernambucano que encantou Hollywood

Mestre do jazz, pernambucano Moacir Santos faria cem anos neste domingo (26)

Marília Parente

Publicado: 25/07/2026 às 06:00

Moacir Santos, aclamado maestro e jazzista pernambucano, em 1994/Carlos Teixeira/Acervo DP

Moacir Santos, aclamado maestro e jazzista pernambucano, em 1994 (Carlos Teixeira/Acervo DP)

Moacir Santos Jr. acordou mais cedo do que o de costume – pouco antes das oito horas da manhã, no horário de Pasadena, Califórnia - para “ligar o português” em entrevista ao Diario de Pernambuco. Aos 77 anos, ele conta que só tem praticado língua materna com meia dúzia de amigos, notadamente com ditongação e vogais retroflexas típicas do sotaque norte-americano, desde que perdeu os pais. Embora seja carioca, Moe (como é conhecido pelos mais próximos) ainda era um adolescente nos anos 1960, quando se mudou para os Estados Unidos para acompanhar Moacir e Cleonice Santos na última grande “arribação” do maestro pernambucano, que completaria 100 anos neste domingo (26).

Nascido em Flores, no Sertão do Pajeú, Moacir Santos foi impelido à condição de migrante pelo sonho de viver de/para a música. Adotado aos dois anos de idade, ele perdeu a mãe biológica quando ainda era um bebê e aprendeu a tocar clarinete, seu primeiro instrumento, na infância, participando da banda filarmônica de sua terra natal, regida por Luiz Benjamin.

“Meu pai era uma pessoa que estudava muito. Ele sempre carregava um livro e um dicionário para onde fosse. Nunca perdia tempo em uma sala de espera de médico ou dentista, sempre estava lendo”, lembra Moe.

 

Entre os 14 e 20 anos de idade, Santos sobreviveu como músico migrando para outras filarmônicas, em cidades como Triunfo e Serra Talhada, no Sertão do estado. Seu desempenho espetacular no saxofone viabilizou sua primeira experiência em uma emissora de rádio, em 1943, através de uma apresentação no programa “Vitrine”, da Rádio Clube de Pernambuco, onde foi anunciado como “um rapazinho que está tocando saxofone”. A sonhada estabilidade financeira só veio, contudo, com a mudança para João Pessoa, na Paraíba, onde Santos conheceu Cleonice, sua companheira de vida e mãe de Moacir Jr.

“Meus pais faziam tudo juntos. Lendo um livro, por exemplo, meu pai dizia um parágrafo em voz alta e minha mãe fazia a leitura do próximo”, conta Moe.

As primeiras lembranças do filho com os pais remontam à casa da família no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, onde Santos atuou como músico, arranjador e regente da orquestra emblemática Rádio Nacional, trabalhando ao lado de nomes como Radamés Gnatalli, Leo Perachi e Lírio Panichalli.

Na sala de estar da família Santos, frequentada pela nata da música popular, Baden Powell e Vinícius de Moraes compuseram “Samba da Bênção”, garante Moe.

“Baden e Vinícius estavam sempre lá em casa. E meu pai pedia assim: ‘Nicinha, faz um salgadinho aí, querida’. Aí minha mãe fazia bolinho de queijo e fritava camarão. Ela cozinhava de tudo”, lembra.

Pesquisadora da obra de Santos e autora da biografia “Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro”, a flautista Andrea Ernest ressalta que, no Rio de Janeiro, Santos teve mestres como Guerra-Peixe e também deu aulas de músicas, tendo alunos como o compositor João Donato. “Em 1964, com o golpe militar, a ditadura promoveu o desmonte da Rádio Nacional e ele decidiu ir morar nos Estados Unidos, onde já tinha ciclo de amigos e admiradores”, destaca.

No Brasil, Santos atuou ainda como compositor de trilhas sonoras de clássicos do cinema novo, como "Ganga Zumba" (1963), de Cacá Diegues, e "Os Fuzis" (1965), de Ruy Guerra. Na mesma época, lançou o aclamado disco “Coisas” (1965), que sintetiza seu esforço para aproximar o jazz da música afro-brasileira. “Ele não tinha dado nomes para essas músicas. Na época, comentava comigo: ‘essa é uma coisa especial’. E o nome disco ficou ‘Coisas’”, explica Moe.

Vida em Pasadena

De temperamento acolhedor e tranquilo, o maestro manteve o hábito de receber amigos e músicos em casa após a mudança para os Estados Unidos, onde seguiu trabalhando como uma espécie de “compositor fantasma” de filmes hollywoodianos. “Na época, esses compositores trabalhavam em grupo para compor as trilhas, abrindo mão dos créditos. No site Trilhas Musicais de Moacir Santos, o pesquisador Lucas Bonetti levanta algumas das participações dele em filmes”, pontua Andrea Ernest.

Dentre as produções audiovisuais norte-americanas com contribuições de Santos, estão a série Missão Impossível, exibida pela CBS entre 1966 e 1973, e Justiça Final (1985), estrelado por Joe Don Baker. Entre os momentos de composição e as aulas de música, recorda-se Moacir Jr., o pernambucano costumava ouvir música clássica e estudar teosofia – um conjunto de teorias místicas e ocultistas voltadas para o conhecimento dos mistérios da vida e da natureza. “Ele era uma pessoa espiritual, vivia no astral”, completa Moe.

Após sofrer um AVC no início dos anos 1990, Santos permaneceu aos cuidados do filho até sua morte em Pasadena, no dia 6 de agosto de 2006. “Papai nunca reclamou da vida, ficava feliz com o reconhecimento internacional que estava recebendo. Sentava no piano e tocava algumas notas, as que conseguia. Em seguida, com a morte da minha mãe, fiquei sozinho em nossa casa”, diz Moe.

Na residência da família em Pasadena, itens como o piano e o saxofone do maestro seguem perfeitamente conservados. “Eu mantenho tudo da forma mais parecida com o que ele deixou”, comenta o filho.

Em visita ao local com o objetivo de enriquecer sua pesquisa, Andrea Ernest chegou a encontrar uma composição inédita de Santos em perfeito estado de conservação. Agora, ela trabalha, acompanhada por seu quarteto, em uma gravação da composição. “A música dele permite improvisar, mas tem coisas em que você não pode mexer, porque são a característica dele: uma melodia super bem construída, uma unidade rítmica, uma harmonia refinada”, pontua a instrumentista.

Para Ernest, a adesão de novos artistas ao trabalho de Santos, cultuado por nomes mundiais do jazz e regravado por artistas como a Orkestra Rumpilezz, do maestro Letieres Leite, mostra que sua obra segue atual e conectada com as linguagens musicais do presente.

“Suas músicas não são datáveis e contam com uma assinatura muito própria, dentro de uma estética que construiu para si, com muito estudo formal e muito talento. Moacir é como Bach e Beethoven, sua música vai continuar boa em qualquer tempo”, conclui a instrumentista.

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