Devoto de Spielberg e feito com zelo, ‘O Fim da Rua’ devolve os dinossauros ao terror e à diversão
Dirigido e concebido por David Robert Mitchell (de 'Corrente do Mal'), filme estrelado por Anne Hathaway e Ewan McGregor é aventura enxuta e envolvente
Publicado: 12/08/2026 às 12:00
Ewan McGregor e Anne Hathaway são transportados para o período jurássico em thriller de sobrevivência enxuto e divertido (Warner/Divulgação)
No início dos anos 1980, Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor) tentam levar um dia tranquilo de churrasco na vizinhança de Oak Street. Apesar dos esforços dos pais para esconder dos filhos, Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery), a crise crescente no casamento, eles já percebem o que está acontecendo. A normalidade aparente é interrompida quando, no meio da noite, uma luz misteriosa atravessa as janelas, acompanhada de um estrondo. Ao acordarem, os quatro percebem que o bairro foi transportado para o período jurássico.
Em cartaz nos cinemas a partir desta quinta (13), “O Fim da Rua” é, possivelmente, o melhor filme de dinossauro desde “Jurassic Park”, lançado em 1993. A competição não ajuda, é verdade: todas as continuações do clássico de Steven Spielberg, principal e única grande referência do cinema no assunto, ficaram aquém do original em diferentes níveis. Este aqui, porém, é totalmente desgarrado da saga jurássica e possui seu próprio universo, ainda que fiel seguidor do realizador que consagrou o blockbuster de verão.
Conhecido pelo terror cult-clássico “Corrente do Mal”, um dos mais influentes do gênero da década passada, o diretor e roteirista David Robert Mitchell concebeu o argumento e tem aqui o suporte e a confiança do produtor J. J. Abrams (da última trilogia de “Star Wars”) para se divertir com o conceito.
A ambientação tradicional de subúrbio é devotada ao cinema de Spielberg dos anos 1980, com ecos de “E.T. O Extraterrestre” e de “Além da Imaginação”; da caracterização da família e da vizinhança à construção gradual do suspense no primeiro ato, Mitchell não só referencia todos esses códigos como os maneja com notável naturalidade.
Como simples projeto de entretenimento, “O Fim da Rua” é um deleite. Ao longo de apenas 1h30 de duração, o roteiro jamais tenta elevar a experiência a um degrau acima do que ela consegue. O fato de o orçamento (estimado em US$ 85 milhões) ser aproximadamente três vezes menor do que o dos últimos quatro “Jurassic World” é excelente para que a produção se volte ao essencial. O apelo está menos na história e mais nas possibilidades de susto e adrenalina proporcionadas pela correria.
A concentração em poucos personagens — basicamente os quatro principais durante a maior parte do tempo — permite que “O Fim da Rua” seja um convicto e autêntico filme de monstro, sem o excesso de trama ou a covardia de mostrar sangue que marcaram “Jurassic World: Domínio”. E os efeitos visuais, reforçados pela fotografia em alta profundidade de campo, transformam todos os dinossauros em ameaças ininterruptas a partir do momento que surgem em cena.
Anne Hathaway, aqui no seu quarto grande papel em 2026 e ainda na esteira do sucesso de “A Odisseia”, lidera entre as atuações centrais com uma ferocidade impressionante nas cenas de ação, enquanto Ewan McGregor encarna a figura do seu marido com uma entrega que faz parecer que os dois trabalham juntos nesses papéis há anos.
“O Fim da Rua” reserva ainda duas ótimas surpresas — e frustra um pouco que, a título de tornar tudo mais familiar, uma delas desfaça completamente a anterior. É tão raro um blockbuster com coragem de tomar decisões que, quando um diretor como David Robert Mitchell ganha a liberdade de fazê-lo, daria gosto ver o resultado sem podas.