Conheça a história de Brites de Albuquerque, a mulher que governou Pernambuco do Alto da Sé, em Olinda
Brites de Albuquerque assumiu a Capitania Hereditária de Pernambuco após a morte do marido, Duarte Coelho, em 1554, na então capital Olinda
Publicado: 12/03/2026 às 05:12
Igreja da Sé, em Olinda (Rafael Vieira/DP Foto)
12 de março é dia de comemorar o aniversário de Olinda. Para homenagear a Marim dos Caetés, o Diario remonta a história de Brites de Albuquerque, a primeira mulher a governar Pernambuco, quando ainda era uma capitania hereditária de Portugal, no distante ano de 1554.
Do castelo onde Brites morou com o marido Duarte Coelho restaram apenas uma ilustração e o espaço onde ele havia sido erguido no Alto da Sé, de forma estratégica, para se proteger dos ataques inimigos.
Quase cinco séculos depois, Olinda acorda em paz e radiante para celebrar os seus 491 anos. Dia de parar a cidade, literalmente. É feriado nesta quinta e ponto facultativo na sexta e a cidade tem uma programação festiva capaz de varar o fim de semana. Confira.
Brites, a "capitoa"
Ela cruzou o oceano rumo ao desconhecido com apenas 17 anos, viabilizou a vinda dos jesuítas e tornou-se a primeira mulher a comandar oficialmente uma capitania hereditária no Brasil.
Nascida em Portugal em meados do ano de 1517, Brites de Albuquerque ainda tem seu nome mais associado à unidade de saúde Olinda, localizada em Cidade Tabajara, do que ao seu papel histórico como governante.
De acordo com o professor de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico pernambucano (IAHGP), George Cabral, Brites assumiu a capitania de Pernambuco após a morte de seu marido, Duarte Coelho, em 1554.
“Ela vinha da poderosa família Albuquerque, que construiu o estado [Português] da Índia. Sua origem nobre impunha um respeito que, mesmo em uma sociedade extremamente machista, lhe conferia legitimidade para governar", explica o historiador.
Ao contrário das meigas e coloridas casinhas conjugadas que estampam os cartões postais de Olinda, a antiga residência de Duarte Coelho e Brites de Albuquerque mais parecia um forte.
Com estrutura de guerra, a torre feita de pedras e poucas janelas, foi pensada para conter a resistência dos povos indígenas de Pernambuco, que lutavam para combater a colonização.
O castelo, que não existe mais, ficava localizado nas proximidades do Alto da Sé, em Olinda.
“A cultura da cana-de-açúcar estava se espalhando muito rapidamente. Há indícios de que as conexões da família de Dona Brites com o Oriente podem ter facilitado a chegada de espécies diferentes, mais adaptadas ao cultivo em zonas tropicais”, comenta Cabral.
A próspera gestão de Brites era assunto no meio político e a opulência da Olinda da época, comparada a Lisboa. “É importante ressaltar, é claro, que tudo isso foi construído com o trabalho de negros e indígenas escravizados”, destaca o historiador.
De acordo com ele, outro marco do governo da “capitoa”, como ela se proclamava, foi o estímulo à vinda dos jesuítas ao Brasil. “Ela criou condições para que, mesmo depois de sua morte, outras ordens também viessem”, acrescenta Cabral.
Mistério
Apesar da riqueza e do status, o rosto de Brites de Albuquerque permanece um mistério. De acordo com o pesquisador, não existem retratos fidedignos dela ou de Duarte Coelho, possivelmente em razão de eventos históricos como o Terremoto de Lisboa, em 1755, além do incêndio e saque de Olinda pelos holandeses, em 1630.
Sem imagens concretas que revelem a aparência de Brites, resta aos curiosos o exercício da imaginação, com base nos costumes e na moda do século XVI. Embora as damas da nobreza usassem vestiduras complexas e armações em dias de festa, o cotidiano na Olinda colonial exigia praticidade. "No dia a dia, mesmo as pessoas muito ricas vestiam-se de forma mais simples, até pelo calor", pontua Cabral.
Legado
Brites governou Pernambuco até o fim de sua vida, em 1584. Seus filhos, Duarte Coelho de Albuquerque e Jorge de Albuquerque Coelho chegaram a ser incorporados à armada do rei Dom Sebastião, que avançava sobre a África. Em razão dos ferimentos após a batalha de Alcácer-Quibir, em 4 de agosto de 1578, Duarte morreu no caminho de volta para Lisboa.
“Após a morte de Brites, a capitania seguiu com a família, ela é hereditária. Por sua trajetória, podemos lembrar dela como uma mulher de coragem e fibra, que atravessou o oceano aos 17 anos rumo a um lugar completamente desconhecido e conseguiu ter um governo de destaque”, conclui Cabral.